A vida não nasce amarga. Somos nós que, aos poucos, vamos desaprendendo a sua doçura. Entre cobranças, perdas, responsabilidades e frustrações, deixamos para trás a espontaneidade de quem um dia acreditou que uma tarde brincando na rua poderia ser um grande acontecimento. Crescemos, aprendemos a cumprir horários, pagar contas e esconder fragilidades. Mas ninguém nos avisou que amadurecer não precisava significar endurecer.
Talvez uma das maiores perdas da vida adulta seja esquecer a criança que fomos. Aquela que corria, jogava bola, inventava histórias e encontrava felicidade nas coisas mais simples. O mundo parecia imenso porque ainda havia espaço para o encantamento.
Toda criança deveria ter o direito de simplesmente ser criança. Brincar, imaginar, descobrir, errar e aprender no seu próprio tempo. Parece óbvio, mas nem sempre é. Muitas convivem cedo demais com preocupações e conflitos que deveriam pertencer ao universo adulto.
A psicanalista Melanie Klein, uma das principais referências da psicanálise infantil, encontrou justamente no brincar um caminho para compreender o mundo interno da criança. Em sua prática clínica, percebeu que a brincadeira poderia exercer, na análise infantil, função semelhante à associação livre utilizada com adultos.
Ao brincar, a criança comunica aquilo que ainda não consegue transformar em palavras. Medos, fantasias, desejos, amor, raiva, culpa e angústias aparecem simbolicamente nos brinquedos, personagens e histórias que cria. Para Klein, brincar não era apenas diversão. Era linguagem, expressão e possibilidade de elaboração emocional.
E talvez seja justamente essa capacidade que vamos perdendo quando crescemos.
Em algum momento, brincar passa a ser visto como perda de tempo. A produtividade ocupa quase todos os espaços e a seriedade vira obrigação. Tornamo-nos adultos capazes de cumprir agendas e resolver problemas, mas, muitas vezes, incapazes de descansar, pedir ajuda ou experimentar alegria sem culpa.
Melanie Klein também demonstrou a importância dos primeiros vínculos afetivos na formação do nosso mundo interno. Experiências de amor, cuidado, ausência, frustração e acolhimento deixam marcas e influenciam a maneira como construímos relações ao longo da vida.
Crianças precisam de atenção, proteção, afeto e colo. Adultos também.
O colo apenas muda de forma. Pode ser uma conversa sem julgamento, um abraço, uma escuta verdadeira ou a presença de alguém quando as palavras já não conseguem explicar a dor.
Talvez esteja faltando justamente isso em nossas relações: doçura.
Vivemos cercados por cobranças e julgamentos. Exigimos força e equilíbrio como se demonstrar fragilidade fosse fraqueza. Esquecemos que cada pessoa carrega uma história feita de afetos, perdas, medos e feridas que nem sempre conseguimos enxergar.
Depois de um Setembro Amarelo e com a proximidade do Dia das Crianças, essa reflexão ganha ainda mais sentido. Olhar para a infância não significa romantizá-la — para muitos, ela não foi feliz. Significa reconhecer aquilo que permanece dentro de nós e que, por vezes, ainda pede cuidado.
A vida adulta tem contas, horários, compromissos e responsabilidades. Mas não precisa ser permanentemente cinza. Pode guardar espaço para alegria, imaginação, delicadeza, afeto e até para um pouco de fantasia.
Melanie Klein nos ensinou que, por meio do brincar, a criança expressa e elabora seu mundo interior. Talvez nós, adultos, também precisemos recuperar algo dessa capacidade: brincar com a existência sem deixar de levá-la a sério.
Porque crescer é inevitável. Perder a doçura não deveria ser.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.


























