Há uma doçura na infância que o tempo não consegue apagar completamente. Ela pode ficar escondida sob as responsabilidades, as decepções e a pressa da vida adulta, mas permanece dentro de nós. Basta uma música antiga, o cheiro de uma comida, uma fotografia ou uma brincadeira esquecida para que aquela criança desperte novamente.
Quando éramos pequenos, a felicidade parecia morar nas coisas mais simples. Estava em correr descalço, brincar de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, pular corda, andar de bicicleta ou transformar qualquer objeto em brinquedo. Um quintal podia virar um universo inteiro. Uma caixa de papelão se transformava em casa, carro ou castelo. Bastava imaginação.
E havia os doces. Uma bala, um pirulito, um pedaço de bolo, um chocolate recebido de alguém especial. Talvez o sabor nem fosse tão extraordinário, mas aquele gesto carregava algo maior. Era cuidado. Era carinho. Era a sensação de ser lembrado. Por isso alguns sabores atravessam décadas e permanecem ligados às pessoas que amamos.
A doçura da criança também estava na forma de enxergar o outro. Fazíamos amizade com uma facilidade que hoje parece impossível. Bastava perguntar: “Quer brincar comigo?”. Pouco depois, dividíamos brinquedos, inventávamos histórias e ríamos juntos como se aquela amizade existisse havia anos.
Criança sabe rir com o corpo inteiro. Ri até perder o fôlego, até a barriga doer, sem se preocupar se alguém está olhando. Chora quando dói, mas muitas vezes, minutos depois, já está brincando novamente. Existe nela uma extraordinária capacidade de estar presente.
Jean Piaget, ao estudar o desenvolvimento infantil, mostrou como a criança constrói sua compreensão do mundo experimentando, perguntando, imaginando e descobrindo. Talvez tenhamos muito a reaprender com essa curiosidade que um dia também foi nossa.
Porque crescemos e, com o tempo, fomos aprendendo a desconfiar, controlar, calcular. Vieram as responsabilidades, as perdas, os boletos, as frustrações e as expectativas. Para não sofrer, construímos defesas. E algumas delas acabaram escondendo também nossa espontaneidade.
Quando foi que paramos de brincar? Quando foi que começamos a acreditar que adulto precisa estar sempre sério, ocupado e preocupado?
Nossa criança interior não pede que abandonemos responsabilidades. Ela apenas nos lembra que viver também é brincar, rir de bobagens, dançar sem saber dançar, cantar desafinado, tomar chuva, fazer algo simplesmente porque nos dá prazer e permitir que a alegria apareça sem precisar de uma ocasião especial.
Resgatar essa criança é também recuperar nossa doçura. Não a ingenuidade que desconhece os perigos, mas a delicadeza de quem ainda consegue se emocionar. É olhar para uma flor, um pôr do sol, um animal brincando ou uma gargalhada e perceber que nem tudo precisa ter utilidade para ter valor.
Talvez amadurecer não seja deixar a infância para trás. Talvez seja aprender a caminhar com ela. Porque, por mais que o tempo passe, aquela criança ainda mora em algum lugar dentro de nós, esperando uma oportunidade para correr, brincar, sorrir e se encantar novamente.
E talvez ela queira apenas nos lembrar de algo que esquecemos enquanto crescíamos: a vida também foi feita para ser saboreada. E um pouco da sua doçura ainda está dentro de nós.
*Soraya Medeiros é jornalista.


























