Vivemos com pressa. Acordamos correndo, atravessamos a cidade, cumprimos compromissos, levamos os filhos de um lugar para outro. Entre telas, trânsito, escola, trabalho e tantas atividades, os dias passam quase sem que percebamos.
E, nessa velocidade, nossos olhos podem estar abertos sem que estejamos, de fato, olhando.
Como oftalmopediatra, penso diariamente sobre a importância da visão na infância. E existe uma diferença bonita entre ver e enxergar. Ver é uma função dos olhos. Enxergar também é presença, atenção e encantamento.
Nossos filhos precisam de momentos para olhar uma flor, acompanhar as árvores se movimentando com o vento, observar um passarinho ou se encantar com uma arara atravessando o céu. Precisam experimentar o mundo para além das telas.
O uso prolongado de celulares, tablets e outros dispositivos exige atenção. Quando estamos concentrados em uma tela, piscamos menos, o que pode favorecer o ressecamento e o desconforto ocular. Por isso, pausas, tempo ao ar livre e uma rotina equilibrada são cuidados importantes para a saúde dos olhos.
Mas talvez exista outro cuidado, tão simples quanto necessário: ensinar nossos filhos a olhar para o belo.
Não precisamos abandonar a tecnologia, os passeios, os shoppings ou a vida agitada da cidade. Precisamos apenas lembrar que os olhos também merecem descanso de tantos estímulos.
E nós, adultos, precisamos disso também.
Às vezes, descansar os olhos é levantar a cabeça. É olhar o céu no fim da tarde. É perceber uma flor no caminho. É observar as folhas dançando com o vento. É parar por alguns instantes para acompanhar o voo de um pássaro.
São pequenas pausas que devolvem aos olhos e talvez também ao coração um pouco de silêncio.
Cuidar da visão infantil passa pelo acompanhamento oftalmológico, pelos hábitos saudáveis e pelo uso consciente das telas. Mas passa também pela oportunidade de descobrir o mundo com curiosidade.
Porque nossos filhos precisam aprender a ver, mas também precisam aprender a enxergar.
E talvez, ao ensiná-los a perceber a beleza das coisas simples, nós mesmos reaprendamos a olhar.
Em meio à correria, o belo continua ali.
Que nossos olhos nunca estejam ocupados demais para percebê-lo.


























