EMPREENDEDORISMO QUE TRANSFORMA

Michely saiu de um cenário de violência e fez da cozinha o ponto de partida para o seu recomeço

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Antes mesmo de entrar, ainda na fachada, quem passa em frente à Griô já percebe que o espaço é diferenciado e acolhedor. Uma trepadeira florida nos recebe à porta e, assim que entramos no pátio, vemos um lindo canteiro com temperos aromáticos. Tudo fresco, orgânico, cheio de cuidado e amor.

Quem vê as conquistas e o sucesso de um empreendimento prestes a completar um ano de portas abertas nem imagina que o talento por trás de tudo isso atua no ramo da alimentação há seis anos e só abraçou essa nova realidade após um episódio de burnout na antiga empresa, onde era responsável pelo setor de Recursos Humanos.

Michely dos Santos Ferreira, cuiabana, mulher preta, de origem periférica, 32 anos, é um exemplo de que é possível vencer todas as adversidades e vulnerabilidades sociais e trilhar um caminho de destaque e reconhecimento por meio de um trabalho de excelência.

Ainda criança, ela sabia que tinha que sair do lugar onde nasceu para viver outras realidades. “Eu cresci no bairro Castelo Branco, um bairro pequeno, de apenas duas ruas, que hoje se tornou Dom Bosco. Várias vezes, ao sair de casa, eu precisei pular pessoas que foram mortas perto de onde eu morava. Eu só sabia que precisava sair dali, mas não sabia para onde ir”, relembra.

A dura realidade fez com que Michely procurasse uma vaga de jovem aprendiz e, aos 13 anos, ela começou a trabalhar. Após se formar em Gestão de Pessoas e Contabilidade, chegou a gerir uma equipe com 250 funcionários, mas com a saúde mental desgastada, Michely percebeu que era hora de recalcular a rota.

“Foi na terapia que a minha psicóloga me incentivou a procurar outras atividades e me desligar do que eu estava vivendo. Eu lembrei que minha avó fazia bolo para mim e foi aí que eu comecei a cozinhar, sem saber que aquilo ia virar um negócio”, conta.

O que começou como terapia virou renda. Primeiro com marmitas saudáveis, depois com uma operação maior, que cresceu durante a pandemia e chegou a ter oito funcionários. Porém, após seis anos, o restaurante foi fechado.

Nesse intervalo entre encerrar a empresa e buscar outra fonte de renda, Michely encontrou, em um anúncio patrocinado de uma rede social, uma ideia para continuar levando comida saudável e nutritiva às famílias através dos serviços de personal chef.

Foi em um desses atendimentos que uma cliente perguntou se ela poderia ensiná-la a cozinhar. De forma despretensiosa, a chef disse que ensinaria se ela conseguisse, pelo menos, quatro amigas que topassem o desafio. A cliente conseguiu 19!

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A rapidez com que a turma lotou acendeu um alerta: as pessoas queriam aprender a cozinhar melhor, de forma prática e aplicável no cotidiano.

Foi assim que nasceu a Griô, uma escola de culinária que resgata a ancestralidade, a autonomia, o aproveitamento integral dos alimentos, a redução do desperdício e o uso inteligente dos ingredientes.

Michely conta que o nome da escola tem inspiração no termo “griot”, de origem nas culturas da África Ocidental, e significa “o guardião da memória de um povo”. É a pessoa responsável por transmitir histórias, saberes, culturas, receitas, músicas e ensinamentos de geração em geração, de forma oral e vivida, não escrita.

“Foi meu esposo Ede, que também é meu sócio, quem escolheu o nome. Quando ele me disse que a escola se chamaria Griô, foi justamente por isso. Porque a proposta não é só ensinar receitas, mas também transmitir conhecimento que carrega história, prática e significado. Na Griô, cozinhar também é isso… aprender fazendo, compartilhar saberes e manter viva uma cultura que vem de muito antes da gente”, explicou.

Antes de abrir as portas, foram 10 meses de obra, período em que ela e o esposo colocaram literalmente a mão na massa para reformar o ponto alugado no bairro Pico do Amor, em Cuiabá.

“Todos os dias eu pensava em desistir. Meu marido Ede foi meu ponto de apoio. Ele acreditou no projeto muito mais que eu. Além da obra, nós trabalhávamos com eventos e personal chef para comprar todos os materiais de construção, e ele ainda passava horas assistindo tutoriais no YouTube para fazer tudo como nós imaginamos”, lembrou.

Hoje, ela colhe os frutos que plantou e atende até 80 pessoas por mês que desejam aprender desde o básico da cozinha aos cursos de panificação, risoto, sushi e muitos outros. As turmas são de duas a seis pessoas e as aulas têm de quatro a seis horas de duração, a depender do tema.

Michely ao lado de Emanoel e Gersina, alunos do curso de risoto

O cuidado com o conhecimento transmitido é percebido por quem participa das aulas. A professora universitária Gersina Cesarone destaca a experiência prática. “Não é só ensinar. Você entende cada etapa e vivencia o processo. Isso faz toda a diferença. Eu amei participar do curso”, afirma.

Já o analista de sistemas Emanoel Zwieten vê na cozinha uma pausa da rotina. “A gente acha que é só copiar receita da internet, mas não é. Aqui você aprende de verdade e ainda desconecta do dia a dia”, diz.

Para garantir a sustentabilidade financeira e ampliar a visibilidade e o alcance da marca, a Griô conta, desde o primeiro, com a assessoria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o Sebrae.

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De acordo com Michely, o suporte foi determinante. “Hoje eu não me vejo mais como uma empreendedora, mas como uma empresária. O Sebrae mudou minha forma de enxergar o negócio”, afirma.

O crescimento da Griô acompanha um movimento mais amplo em Mato Grosso. Dados do Sebrae mostram que o número de pequenos negócios atendidos no estado vem aumentando de forma consistente. Em março de 2024, foram 40.845 atendimentos. Em 2025, o número se manteve próximo, com 40.398. Já em 2026, o total saltou para 89.486 atendimentos, um aumento de 121,5%.

Segundo Júlio Prior, gerente da Regional Metropolitana do Sebrae-MT, o avanço reflete um ambiente cada vez mais favorável ao empreendedorismo, especialmente em negócios de nicho, que unem experiência, identidade cultural e geração de renda.

“Nosso objetivo final é gerar desenvolvimento para Mato Grosso. Ao apoiar empreendedores como a Michely, buscamos criar um efeito multiplicador: empresas mais fortes e lucrativas que geram empregos, movimentam a economia local e aumentam a produtividade. Histórias de coragem e inovação, como a dela, são o motor que fortalece todo o nosso ecossistema empreendedor”, declarou.

Júlio Prior, gerente da Regional Metropolitana do Sebrae-MT

Hoje, Michely e o esposo Ede vivem integralmente da renda gerada pelo próprio negócio e já projetam expansão da Griô para o ambiente digital. “O meu maior sonho é ser reconhecida como uma chef de cozinha que valoriza a cultura da culinária ancestral. Além disso, também quero expandir as oficinas e cursos para todo o Brasil através dos infoprodutos, que serão cursos disponibilizados em plataformas digitais e que poderão ser acessadas de qualquer lugar do mundo”, revela.

Enquanto esse plano ainda ganha forma, Michely defende que para empreender é preciso mais do que talento, é necessário ter clareza, paciência e organização para começar um negócio. “A dica que eu dou para quem deseja empreender é: primeiro faça o seu plano de negócio, precifique todos os produtos e só depois abra as portas. Você precisa ter certeza de que será possível viabilizar o seu negócio. Também não se esqueça de ter reservas financeiras para se manter por pelo menos seis meses sem tirar dinheiro do caixa da empresa”, orienta.

Entre um curso e outro, Michely segue ensinando e transformando histórias, a começar pela própria.

 

Serviço:

Escola de Culinária Griô

Rua La Paz, 146 – Pico do Amor, Cuiabá – MT

Instagram: https://www.instagram.com/grio.escola/

Telefone para contato: (65) 99344-1233

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