Se, por muito tempo, a principal pergunta no mercado de trabalho era se o jovem estava preparado para a empresa, hoje chegamos no momento de invertermos a questão. As empresas estão preparadas para receber e manter o jovem que desejam contratar?
A provocação não pretende transferir responsabilidades. Pelo contrário. Ela reconhece que a empregabilidade é uma construção conjunta, mas os desafios mudaram. Assim como o jovem precisa desenvolver competências para ingressar no mercado, as organizações também precisam compreender quem é essa nova geração, quais são suas expectativas e o que faz com que ela escolha, e permaneça, em uma empresa.
Os números do Ministério do Trabalho e Emprego atestam essa mudança.
O Brasil possui, hoje, 32,9 milhões de jovens entre 14 e 24 anos. Desses, 12,8 milhões apenas estudam e 4,3 milhões estudam e trabalham. Do total, 73% concluíram pelo menos o ensino médio, sinal de que esta geração aposta na educação para construir a carreira.
Ao contrário de alguns estereótipos, os dados mostram que o jovem brasileiro quer estudar, quer trabalhar e quer construir um futuro profissional. O desafio não está na falta de interesse. Está na qualidade das oportunidades oferecidas e, principalmente, na capacidade de transformar a primeira contratação em uma trajetória de desenvolvimento.
Esse ponto fica ainda mais evidente quando observamos a pesquisa nacional realizada pelo Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE com quase 9 mil jovens brasileiros. Entre os fatores que mais influenciam na escolha de uma empresa para trabalhar, 54% apontaram a oportunidade de crescimento profissional, enquanto 43% citaram remuneração e benefícios. O ambiente de trabalho vem em seguida, mencionado por 31% dos entrevistados.
Esse resultado desmonta a ideia de que esta geração está interessada apenas em salários mais altos ou em benefícios diferenciados. O que ela procura é perspectiva. Quer enxergar evolução, aprendizado e possibilidades concretas de desenvolvimento. Tanto que 98% dos jovens afirmam sonhar em trabalhar em empresas que incentivam seu desenvolvimento profissional. Da mesma forma, 98% consideram importante que as organizações valorizem os jovens, e sete em cada dez evitam trabalhar em locais cujos valores não são alinhados aos seus. Ou seja: o jovem de hoje não escolhe apenas um emprego. Ele opta por um ambiente em que acredita que poderá crescer.
Esse cenário traz uma reflexão importante para as empresas. Hoje, enquanto a empresa avalia o jovem, o jovem também avalia a empresa. Ele observa a cultura organizacional, a forma como as lideranças conduzem as equipes, as oportunidades de aprendizagem, o respeito às pessoas, a preocupação com saúde mental e o espaço para construir uma carreira. Atrair talentos não se limita mais apenas à oferta de uma vaga. Passou a depender da experiência proporcionada ao longo da jornada profissional.
Os próprios dados do Ministério do Trabalho reforçam esse desafio.
Embora o desemprego entre jovens venha caindo nos últimos anos, a taxa de desocupação entre pessoas de 18 a 24 anos ainda é mais que o dobro da média nacional. Cerca de 38,2% dos jovens ficam menos de um ano no mesmo emprego, o que mostra que o desafio atual já não é abrir portas de entrada, mas criar condições para que elas sigam abertas.
A maior transformação da empregabilidade não está mais em saber se o jovem está preparado para ingressar no mercado de trabalho. Isso continua relevante, mas não é tudo. Tão (ou mais) importante agora é conseguir responder à pergunta: as empresas estão prontas para receber e manter o jovem profissional? Em um mercado em que talento também escolhe onde quer estar, compreender esse cenário não pode ser um diferencial, mas a condição básica para formar profissionais, fortalecer organizações e construir um futuro mais sustentável para o trabalho.
*Iara Oliveira é supervisora do CIEE em Mato Grosso


























