Ruth Shizue Yamamoto Medeiros, esposa do deputado federal e candidato ao Senado José Medeiros (PL), mantém dois vínculos simultâneos com o poder público que, segundo os próprios sistemas oficiais consultados pelo
, parecem inconciliáveis. Ela é servidora efetiva da Prefeitura de Rondonópolis, com jornada registrada de 30 horas semanais, das 12h às 18h, e ao mesmo tempo ocupa cargo comissionado na Presidência do Senado Federal, em Brasília, estrutura hoje comandada pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP).
O detalhe que dá peso político ao caso é a data. Ruth ingressou no cargo comissionado da Presidência do Senado em 2019, justamente no ano em que Alcolumbre assumiu pela primeira vez o comando da Casa e no mesmo ano em que José Medeiros iniciou seu primeiro mandato como deputado federal. Ela permaneceu no posto durante toda a gestão de Rodrigo Pacheco e continuou lá quando Alcolumbre reassumiu a Presidência. Ou seja: o vínculo nasce dentro da estrutura de poder do próprio senador que Medeiros hoje trata com deferência pública.
Os dados dos dois portais de transparência não se cruzam, mas colocados lado a lado escancaram a incompatibilidade. Em Rondonópolis, Ruth aparece como especialista em saúde vinculada à Secretaria Municipal de Governo, com jornada expressa de seis horas diárias, das 12h às 18h, salário bruto de R$ 22.652,77 e remuneração líquida de R$ 13.169,80.
No Senado, consta como Ajudante Parlamentar Júnior, símbolo AP-01, lotada na Presidência, com remuneração de R$ 2.331,50 mais R$ 1.833,54 de auxílio-alimentação, totalizando R$ 4.165,04 na folha de agosto de 2026.
Somados os valores brutos informados pelos dois órgãos, o montante chega a R$ 26.817,81. Nenhum dos dois portais explica como a servidora cumpre presencialmente uma jornada municipal das 12h às 18h em Rondonópolis e, ao mesmo tempo, exerce função comissionada na Presidência do Senado, em Brasília.
Nenhum registro de afastamento ou cessão
A consulta ao Portal da Transparência de Rondonópolis não traz nenhum registro de afastamento ou cessão da servidora para o Senado. No campo destinado a esse tipo de ocorrência, o sistema municipal informa apenas: “nenhum registro foi encontrado”. Isso significa que, ao menos nos dados públicos disponíveis, Ruth segue formalmente ativa e à disposição da Prefeitura, sem qualquer licença, cessão ou afastamento que justifique o exercício simultâneo do cargo em Brasília.
Apuração do
indica que os pagamentos da Prefeitura de Rondonópolis a Ruth teria seguido até o mês corrente, inclusive com direito a décimo terceiro salário. A informação ainda não foi confirmada oficialmente pelo município e será atualizada assim que houver resposta ao pedido de esclarecimento enviado pela reportagem.
Medeiros ataca o STF, mas poupa quem comanda o Senado
É nesse ponto que a reportagem ganha contorno político mais direto. Medeiros tem endurecido o discurso contra o Supremo Tribunal Federal, a quem já chamou de “casa da mãe Joana”, e cobra publicamente que o Senado reaja à atuação dos ministros da Corte, inclusive dando andamento a pedidos de impeachment. Quando a cobrança deveria recair sobre quem tem o poder de fato de movimentar esses pedidos, porém, o tom muda de forma perceptível.
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, é quem detém a prerrogativa de encaminhar ou travar os pedidos de impeachment contra ministros do STF, e já se posicionou publicamente contra o uso desse instrumento. Ainda assim, Medeiros nunca dirigiu a ele as mesmas críticas nominais que reserva ao Supremo. Pelo contrário: chegou a elogiá-lo publicamente, afirmando que “com a experiência que tem, o senador Davi Alcolumbre vai restabelecer o equilíbrio no país”.
A coincidência salta aos olhos: é justamente na estrutura administrativa comandada por Alcolumbre, a Presidência do Senado, que a esposa de Medeiros ocupa cargo comissionado há sete anos, contratada no primeiro ano em que o senador assumiu o comando da Casa. Enquanto o deputado cobra publicamente que o Senado enfrente o STF, sua família mantém vínculo direto, remunerado e ininterrupto com o gabinete de quem preside a instituição que ele diz querer pressionar.
Outro lado
NOTA
Ruth Medeiros é servidora pública efetiva de carreira do Município de Rondonópolis, e sua cessão ao Senado Federal foi formalizada ainda em 2019, durante a gestão municipal de Zé Carlos do Pátio à qual o deputado federal José Medeiros fazia oposição.
José Medeiros, registre-se, não possui qualquer vínculo funcional ou administrativo com o Senado Federal, pois exerce mandato de Deputado Federal na Câmara dos Deputados.
A cessão de servidores efetivos entre órgãos públicos é instituto absolutamente regular da Administração Pública, destinado justamente ao aproveitamento da experiência e da capacidade técnica de servidores de carreira. O vínculo de Ruth é antigo, público, formal e plenamente verificável nos portais oficiais, inexistindo qualquer fato novo ou irregularidade.
Em período eleitoral, diante da ausência de fatos concretos contra José Medeiros, adversários tentam atingir sua família e expor sua esposa por uma situação funcional regular existente há anos. Transformar a trajetória profissional de uma mulher em instrumento de ataque político contra seu marido ultrapassa o debate legítimo e revela uma tentativa lamentável de constrangimento e desqualificação pessoal por razão de gênero.





























