A presidente da Comissão dos Direitos das Mulheres da Câmara Municipal de Cuiabá, vereadora Maria Avalone (PSDB), está à frente do movimento “Eles por Elas”, iniciativa que tem como objetivo ampliar a participação masculina nas ações de prevenção e enfrentamento à violência de gênero. A proposta surge em um momento preocupante, onde Mato Grosso aparece entre os estados com maiores índices de feminicídio e violência contra mulheres no Brasil, e a capital também enfrenta índices alarmantes.
O Cuiabá Notícias conversou com a vereadora sobre a participação masculina no enfrentamento das políticas públicas de combate à violência contra a mulher, abordando os principais desafios e entraves para envolver os homens nesse debate.
“A violência cresceu muito, aumentou muito, é uma realidade. Infelizmente, o nosso estado está entre os primeiros em casos de feminicídio. As mulheres já sofreram essa violência, mas ainda temos poucos homens participando da luta. Isso é perigoso”, afirmou a vereadora.
Segundo ela, ainda existe resistência por parte de homens em participar de reuniões e campanhas sobre o tema, muitas vezes por vergonha ou por influência de uma cultura ‘machista’.
“Os homens às vezes ficam até envergonhados de estar em uma reunião dessas. Muitos pensam: ‘eu não pratiquei violência, então por que vou discutir isso?’. Mas é justamente por isso que precisamos deles, para mostrar a importância de se engajar e apoiar as mulheres”, destacou.
Ao Cuiabá Notícias, a vereadora ressalta que a falta de diálogo direto com os homens pode ser um dos fatores dessa ausência.
“Talvez também porque nós, mulheres, não incentivamos ou não convidamos tanto. Ficou-se no discurso voltado apenas às mulheres. Nós precisamos conversar com eles, dialogar e informar”, explicou.
“Por isso que eu acho que o ‘Eles por Elas’, é uma campanha para conversar, para falar para os homens a importância que eles tem de estarem participando, de virem para reuniões. Muitas vezes a gente até convida, mas nem todos aceitam o convite.
Confira a entrevista completa:
Cuiabá Notícias: A senhora tem esse movimento “Eles por Elas”. Como pretende fazer esse enfrentamento à violência contra a mulher? Quais são os passos?
Vereadora – Maria Avalone: Esse movimento surgiu na Austrália em 2014. A ideia era mostrar que os homens também precisam estar ao lado das mulheres nesse combate. Aqui no Brasil, e especialmente em Mato Grosso, a violência cresceu muito, infelizmente. Nosso estado saiu da segunda para a primeira posição em casos de feminicídio, tanto no interior quanto na capital.
Em praticamente todas as reuniões, só vemos mulheres participando. Mas somos nós que estamos sofrendo a violência, e ficamos apenas ouvindo palestras e debates entre mulheres. Poucos homens aparecem. Foi aí que pensei: precisamos trazer os homens para o diálogo, para que estejam conosco, nos apoiem, nos protejam e também se comprometam nesse enfrentamento.
Se não trouxermos os homens, continuaremos falando sozinhas. O movimento quer chamar os homens para participar, apoiar, dividir essa responsabilidade. Eles precisam entender o quanto nós, mulheres, precisamos desse apoio para mudar essa realidade.
Cuiabá Notícias: A senhora falou em prevenção e educação. Como isso entra no trabalho do movimento?
Vereadora – Maria Avalone: A prevenção começa na escola. Conversando com meninos e meninas, mostrando desde cedo que a violência não pode ser algo natural. Muitas vezes a criança cresce num lar violento e passa a achar que isso é normal. Vê o pai bater e depois demonstrar carinho, e assim internaliza esse ciclo. Se não quebrarmos isso cedo, essa criança, ao crescer, pode reproduzir a mesma violência.
Cuiabá Notícias: E quais medidas práticas a senhora defende nesse enfrentamento?
Vereadora – Maria Avalone: Temos tentado de várias formas: aumentar o número de delegacias especializadas, reforçar a Lei Maria da Penha, melhorar a atuação das políticas públicas. Mas nada vai ser suficiente se não atacarmos a raiz do problema, que é a educação e a prevenção. Ensinar, informar e conscientizar é o caminho.
Cuiabá Notícias: A senhora também mencionou a violência nas escolas. Como enxerga essa situação?
Vereadora – Maria Avalone: A violência hoje não está só na relação de gênero. Vemos também casos de crianças e adolescentes se juntando para agredir colegas que consideram diferentes ou que pensam de outra forma. Isso está crescendo muito e precisa de atenção. Por isso, reforço: precisamos convocar os homens para se engajarem nesse movimento “Eles por Elas”, porque o combate à violência não é só uma causa das mulheres, é de toda a sociedade.
Cuiabá Notícias: A senhora acredita que muitos homens ainda têm resistência em participar de movimentos ou reuniões sobre violência contra a mulher?
Vereadora – Maria Avalone: Acho que os homens ainda sentem vergonha de participar de movimentos ou reuniões sobre violência, como se o simples fato de estarem ali os colocasse no papel de agressores — mesmo quando não são. Mas também acredito que nós, mulheres, não os incentivamos o suficiente, não os convidamos para o diálogo. Nossas falas costumam ser direcionadas apenas às mulheres.
Cuiabá Notícias: Então a resistência dos homens vem deles mesmos ou da forma como o assunto é conduzido?
Vereadora – Maria Avalone: Vem dos dois lados. Existe uma resistência natural, fruto do machismo, da ideia de que “se eu não praticar violência, por que vou discutir sobre ela?”. E, ao mesmo tempo, nós não fazemos campanhas amplas o bastante para conscientizar os homens sobre a importância de participar e estar presentes. Muitas vezes até convidamos, mas poucos aceitam.
E essa resistência pode estar ligada à educação que eles receberam . Nós, mulheres, em geral, somos as responsáveis por criar os filhos. E, historicamente, cobramos muito mais das meninas do que dos meninos. Por exemplo: ensinar a lavar a própria roupa, arrumar a mesa e ajudar em casa. Isso sempre foi exigido das meninas, enquanto os meninos eram poupados. As meninas acabam crescendo mais independentes, responsáveis, determinadas. Hoje vemos muitas mulheres mais seguras, estudando, se formando cedo, conquistando espaço. Já os meninos, em muitos casos, crescem mais inseguros, com menos responsabilidade, porque não foram cobrados da mesma forma. Isso se reflete depois no comportamento social, no trabalho e até nas relações pessoais.
Precisamos começar pela educação dentro de casa, quebrando esse ciclo. Tanto meninos quanto meninas devem ser ensinados a dividir responsabilidades e a respeitar o outro. Se continuarmos educando de forma desigual, perpetuaremos esse machismo. Mas acredito que as novas gerações já estão mudando — as meninas estão mais fortes e independentes, e é hora de os meninos também aprenderem a assumir esse papel.
Cuiabá Notícias: Como o senhor acredita que os homem podem ser mais engajados na luta contra a violência doméstica e na prevenção do feminicídio?
Vereadora – Maria Avalone: Uma das coisas que tenho pensado muito é começar a levar palestras para os ambientes onde os homens estão, seja trabalho, onde estiverem. Antes da pandemia, várias empresas já promoviam esse tipo de palestra, inclusive abordando o impacto do álcool na violência doméstica, mas muitas pararam durante esse período.
Muitas vezes, os casos de violência acontecem em famílias cujos homens chegam em casa cansados ou estressados, às vezes após o consumo de álcool, e acabam agredindo suas parceiras. Observamos, por exemplo, que os finais de semana são os momentos em que a violência ocorre com mais frequência, muitas vezes associada ao consumo de bebidas alcoólicas.
O trabalho de conscientização é fundamental. Como o projeto desenvolvido pelo delegado da Polícia Civil, Mário Dermeval, ‘Papo de Homem para Homem’, que realiza ações nesse sentido, e sempre ressalta: não há saída a não ser o diálogo. Precisamos chamar os homens para conversar, mostrar exemplos e sensibilizá-los. Muitas vezes, eles pensam que essas conversas são apenas “coisa de mulher”, mas quando outro homem apresenta os impactos da violência, isso pode realmente abrir os olhos.
É importante fazer com que entendam: se não mudarmos essa cultura, filhos e filhas cresceram reproduzindo esses comportamentos. Por isso, acredito que precisamos de mais conversas, mais clareza e também abordar temas como saúde mental, que estão diretamente ligados ao comportamento agressivo.
Confira trechos da entrevista:




















