Nádia Soares Macanham

Saúde mental não cabe em um mês: a necessidade de ação contínua nas empresas

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Janeiro termina, as campanhas se encerram e, em muitos ambientes corporativos, o assunto “saúde mental” volta para a gaveta. O problema é que a realidade do trabalho não segue o calendário das campanhas. Ansiedade, depressão, esgotamento emocional e afastamentos não escolhem mês — e os números recentes mostram que ignorar isso tem um custo alto, humano e organizacional.

Dados do Ministério da Previdência Social revelam que 2024 registrou mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um crescimento de cerca de 68% em relação ao ano anterior. Transtornos de ansiedade e episódios depressivos lideram as causas, com maior incidência entre mulheres, na faixa média dos 41 anos. Não se trata de casos isolados, mas de um fenômeno estrutural que precisa ser enfrentado com seriedade.

Os afastamentos variam de alguns dias a vários meses e estão diretamente ligados a fatores como sobrecarga de funções, acúmulo de responsabilidades familiares e ambientes de trabalho tóxicos. As condições são multifatoriais, mas o ambiente de trabalho tóxico, a sobrecarga, a falta de reconhecimento e o desequilíbrio entre vida pessoal e profissional são grandes gatilhos. Esses dados escancaram uma realidade que muitos gestores ainda relutam em admitir: a forma como o trabalho é organizado adoece.

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Durante o Janeiro Branco, empresas costumam promover palestras, rodas de conversa e ações pontuais. Essas iniciativas são importantes, mas insuficientes quando não fazem parte de uma política contínua. Falar sobre saúde mental uma vez por ano não resolve um problema que se constrói diariamente, em metas inalcançáveis, jornadas extensas, lideranças despreparadas e culturas organizacionais baseadas no medo ou na pressão constante.

Esse debate ganha ainda mais peso com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir, a partir de maio, que as empresas adotem medidas para preservar a saúde mental dos trabalhadores. O cuidado com o bem-estar psicológico deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma obrigação legal, equiparada aos riscos físicos e operacionais. Isso exige planejamento, diagnóstico do ambiente de trabalho e acompanhamento contínuo — não ações simbólicas.

Mais do que cumprir uma norma, investir em saúde mental é uma decisão estratégica. Empresas que adotam programas de apoio psicológico, capacitam lideranças, criam canais de escuta ativa e promovem relações de trabalho mais saudáveis reduzem afastamentos, fortalecem o clima organizacional e melhoram a produtividade. Pessoas mentalmente saudáveis trabalham melhor, se engajam mais e permanecem por mais tempo nas organizações.

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A saúde mental precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outro indicador de gestão. Janeiro pode ser um ponto de partida, mas não pode ser o ponto final. Cuidar das pessoas não é tendência, não é discurso e não é marketing: é responsabilidade, compromisso e visão de futuro.

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