Alcione Lescano de Souza Junior

Um bobo em nossa vida

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Era um sábado claro e quente, e estávamos na casa de um amigo, fazendo um churrasco e desfrutando de algumas cervejas. Enquanto isso, um homem de estatura baixa, negro e aparentando cerca de 50 anos, com uma deficiência física, se dedicava a limpar vigorosamente a calçada ao redor da piscina, jogando água e passando uma vassoura. Os amigos que estavam ali não conseguiam conter as risadas ao observar a maneira desajeitada com que Léo, como era conhecido, realizava a limpeza. Às vezes, ele se atrapalhava com a própria vassoura ou balançava de um lado para o outro, dando a impressão de estar embriagado. No entanto, Léo não consumia álcool, mas claramente enfrentava algumas limitações tanto físicas quanto mentais.

Recordo que fiquei incomodado com a situação de zombaria em relação àquele homem, e questionei o anfitrião sobre quem era o Léo. Ele me explicou que Léo havia vivido com sua família por muitos anos e que tinha sido adotado pelos pais dele. Léo tinha sido trazido de uma fazenda, embora não me recorde de quem, para ser criado ao lado dele e de seus irmãos. Léo era parte da família e contribuía para cuidar da casa e de todos que ali moravam – “ele é meu irmão!” foi o que ele me afirmou.

Certa vez, uma amiga, com um tom de ironia, me comentou que muitas famílias tradicionais tinham um bobo em casa. Ela estava se referindo a alguém abestalhada, ingênua, semelhante a um bobo da corte dos tempos antigos, que frequentemente era alvo de brincadeiras e gozações. Foi então que me lembrei da história do Léo. No entanto, anos mais tarde, ao refletir sobre o que minha amiga tinha falado, comecei a perceber que não eram apenas os bobos que eram submetidos a trabalhos pesados e ao ridículo. Aqueles que se desviavam dos padrões “normais” valorizados pela elite local também eram incluídos nesta definição. Indivíduos negros, homossexuais, órfãos, pessoas em situação de pobreza, sem escolaridade e oriundas de áreas periféricas também se enquadravam nesse grupo dos “bobos”. Desde então, passei a reunir diversas histórias, incluindo algumas da minha própria família.

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Quando eu tinha apenas dois anos, perdi minha mãe e passei a viver com meus avós maternos. Meu avô, aposentado da função de fiscal de impostos, era dono de uma propriedade rural de 2.500 hectares. Eu estudava em uma escola particular e ia a um clube frequentado pela elite da cidade, o que nos colocava na categoria de família de classe média. Um episódio marcante ocorreu quando eu tinha 12 anos: um garoto da mesma idade apareceu em nossa casa. Meus avós informaram que ele vinha da fazenda para me fazer companhia e que iria se matricular na mesma escola que eu. Fiquei surpreso, pois não sentia falta de companhia; tinha amigos na escola, jogava futebol e conhecia os moradores da minha rua. Contudo, percebi que, devido à perda da minha mãe, meus avós poderiam ter pensado que eu estava carente e que precisaria de um amigo para brincar, um gesto, sem dúvida, vindo de um amor sincero, embora um tanto bizarro.

Não passou nem um mês desde que meu avô trouxe o garoto de volta à fazenda, onde seus pais residiam e trabalhavam. Durante o período em que ele ficou na minha casa, me pareceu que aqueles foram os piores dias para ele. À noite, eu o ouvia chorando, e durante o dia, não mostrava interesse em brincar, frequentemente se recusando a ir para a escola. Ele falava muito sobre aquilo que costumava fazer na fazenda e que agora não podia mais realizar, mergulhando em uma profunda tristeza. Era evidente a violência que aquele menino enfrentava, ao ser separado do seu lar, da sua família, abandonando seu modo de viver e seus valores, para se submeter a uma nova realidade que atendia apenas aos desejos do patrão.

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Em diversas ocasiões, escutei famílias afirmarem que as pessoas que acolhiam eram indivíduos desamparados, que, por serem marginalizados pela sociedade, não conseguiam se sustentar de forma independente. Naquela época, por volta do ano de 1980, o emprego formal com registro era um luxo, e os pobres e negros frequentemente eram excluídos desse acesso.

Esse discurso, que se estendia por gerações, era mesclado com apelo religioso, pois, ao abrirem suas casas para os mais necessitados, estavam seguindo um princípio cristão de ajudar o próximo. No entanto, por trás dessas falas, havia uma estratégia de exploração da classe dominante sobre as minorias, disfarçada de generosidade e virtude. O Léo, sob a benevolência da sua família adotiva era submetido ao trabalho braçal, ao deboche, sem nenhuma pretensão de equipará-lo a vida do seu “irmão”, pois Léo não recebeu educação formal, nem mesmo salário.  Esse fato, como muitos outros, reflete a mentalidade que remonta desde o período colonial e imperial do Brasil, onde a elite branca se sustentava pelo trabalho escravo, e ditava a organização social, política e econômica da época.

O Brasil tem feito progressos significativos no combate à exploração do trabalho, à violência de gênero e à discriminação. A legislação tem se desenvolvido de maneira importante, principalmente com a tipificação da homofobia como crime de racismo, a implementação de leis contra a violência de gênero e a criminalização do bullying e do cyberbullying. No entanto, as raízes patriarcais, escravistas e machistas ainda estão presentes em nossa sociedade, o que se reflete na cultura vigente, pois as leis não têm sido suficientes para conter o aumento do feminicídio, das taxas de suicídio relacionadas ao bullying e das situações de trabalho análogas à escravidão. É fundamental revisitar nosso passado de forma crítica, examinar nossa trajetória marcada pela violência sem se importar em cometer julgamentos anacrônicos e preparar as futuras gerações sem saudosismo por um passado caracterizado pela exploração e discriminação.

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