O edifício de aparência simples, anexo a uma igreja católica, pode passar despercebido por quem circula pela Rua 22 de Novembro, no bairro Jardim União, em Cuiabá. Por trás da fachada discreta, porém, funciona o Centro de Educação Infantil Rosa Mutran Maluf, considerado uma das melhores escolas do mundo.
Finalista na categoria Inovação do World’s Best School Prizes 2026, um dos mais importantes prêmios internacionais da educação e conhecido como a “Copa do Mundo das Escolas”, o Centro está entre as quatro instituições brasileiras que chegaram à final da edição deste ano.
A escola, no entanto, nunca teve como objetivo conquistar reconhecimento internacional. O trabalho é voltado ao desenvolvimento conjunto das crianças e de todos os profissionais da unidade — da equipe pedagógica aos funcionários responsáveis pela limpeza e pelos cuidados gerais —, seguindo uma proposta baseada na educação popular e na pedagogia inaciana, que busca a formação integral do ser humano.
Mantido pela Fundação Fé e Alegria, instituição privada, filantrópica e sem fins lucrativos ligada à Companhia de Jesus (Jesuítas), o Rosa Mutran Maluf acolhe, há 15 anos, crianças do Jardim União e de bairros vizinhos, com prioridade para famílias em situação de vulnerabilidade social.
Atualmente, a instituição atende, em período integral, 110 crianças com idades entre 1 ano e 6 meses e 3 anos e 11 meses.
Em entrevista ao MidiaNews, a coordenadora pedagógica da escola, Daiene Rayssa Santos Cavalcanti, explicou que o objetivo comum do trabalho desenvolvido é estimular o protagonismo e o poder de escolha da criança durante o processo de aprendizagem.
O que garante espaço à escola na categoria da premiação são os territórios de aprendizagem e o projeto antirracista desenvolvido cotidianamente na instituição, promovendo uma educação colaborativa, investigativa e humana desde a primeira infância.
A caminhada até o reconhecimento mundial começou com a implantação das salas temáticas durante o retorno às aulas presenciais, após o período da pandemia da Covid-19, como explicou a coordenadora.
“Nós ficávamos pensando como as crianças se sentiriam se elas estivessem em uma sala e não pudessem aproveitar uma outra sala. E nós já tínhamos essa ideia de que seria legal se elas pudessem escolher para onde elas fossem e tudo mais, além de que queríamos trabalhar com a potencialidade de cada educador, já que cada um deles era melhor em uma atividade diferente”, afirmou.
“Foi com esse começo, com essa idealização, que nós pensamos nas salas temáticas, que é a metodologia criancisse. Aqui são cinco temas trabalhados, cada um em uma sala, e, durante o restante do período, elas são as salas de referência das crianças, onde elas passam o restante do dia”, acrescentou.
Cada sala tem um objetivo: a Play trabalha com tecnologia e jogos; a Jardim Encantado, com literatura e música; a Galáxia, com ciência e conhecimentos sobre o mundo; a Aquarela, com artes e cultura; e a Divertidamente foca na neuropsicomotricidade. Além delas, foi criada uma sala extra, a Pantanal, que funciona como espaço de recursos, com TV, câmeras e cozinha para manuseio dos alunos.
Em cada uma delas, há sempre duas profissionais para auxiliar as crianças: uma pedagoga e uma auxiliar educacional. Durante uma hora pela manhã, as crianças fazem um rodízio entre os espaços, passando, a cada dia, por uma sala diferente, com um tema e uma professora diferentes.
“Não nasceu pronto”
Apesar de ter se tornado uma metodologia reconhecida internacionalmente, o projeto não surgiu pronto. Segundo Daiene, ele foi construído a partir da observação do contexto das crianças, da escuta das famílias e das experiências dos próprios profissionais.
“Eu acredito que pode ser uma inspiração para outros espaços educativos. Nós acreditamos nesse processo como algo que pode ser experimentado também por outras instituições, porque ele não nasceu pronto para a gente. Ele foi feito a partir da escuta das famílias, da comunidade, dessa observação do contexto das crianças, e a gente considera que ele é tecido a várias mãos”, afirmou.
A coordenadora também ressaltou que a proposta passa por mudanças conforme novas necessidades são identificadas. Para ela, a construção do projeto não significa alcançar um modelo perfeito, mas estar disposto a rever as próprias práticas.
“Nós vamos mudando partes dos próprios projetos, de como a gente lida com as crianças no cotidiano. Nós cometemos erros, como todo mundo, e revemos esses erros e mudamos a forma de proceder em relação a algumas questões”, disse.
Essa lógica também aparece na maneira como as atividades são desenvolvidas. Nos chamados territórios de aprendizagem, a professora prepara o ambiente com uma intenção pedagógica, mas são as crianças que exploram o espaço e participam da construção do próprio desenvolvimento.
Segundo a coordenadora, é de extrema importância ouvir as crianças e deixar com que elas experimentem, avaliem e reavaliem os seus projetos. A proposta busca respeitar o ritmo de cada criança por meio da escuta e da observação.
“A gente está nesse constante, ouvindo as crianças, as observando, fazendo as coisas não para elas, mas com elas. Eu acho que essa é a diferença”, ressaltou.
A partir do método, é possível perceber uma mudança até mesmo na autonomia e no vocabulário dos alunos, que passam a escolher o que e como querem aprender.
A pedagoga Diana Evangelista, responsável pela sala Divertidamente, acompanha parte desse processo. No espaço voltado à psicomotricidade, as crianças trabalham movimentos como subir e descer e desenvolvem habilidades ao longo do ano.
“A gente lida muito sobre a rotina com as crianças, e na sala Divertidamente trabalhamos a psicomotricidade, que é o desenvolvimento do corpo, subir, descer, mover. E trabalhar isso com elas no dia a dia é também aprender com elas”, relatou a profissional.
Educação antirracista no cotidiano
Além das salas temáticas, o projeto Entre Nós é outro dos pilares que levaram o Centro à premiação. Voltado à educação para as relações étnico-raciais, ele não é tratado como uma atividade isolada ou restrita a datas comemorativas, mas incorporado às escolhas e às práticas do cotidiano.
“Ele é feito a partir de cada vivência das crianças, não é uma atividade isolada, não é uma data comemorativa. Ele acontece no cotidiano. Na escolha dos livros, a gente pensa nesse protagonismo, nessa representatividade; na escolha dos materiais, dos brinquedos e até numa simples imagem que nós vamos escolher”, afirmou a coordenadora.
A representatividade também aparece no cuidado com os cabelos das crianças. Durante a tarde, elas contam com um catálogo de penteados e podem escolher qual desejam. A equipe também passa por formações para desenvolver habilidades relacionadas aos diferentes tipos e curvaturas de cabelo.
E também trabalhamos essa autonomia das crianças na escolha e na valorização dos seus cabelos. É um processo muito cotidiano. Ele está nas miudezas do cotidiano”, completou.
O projeto também é levado para além do Centro, com formações para outros educadores e ações de multiplicação da proposta.
Essa preocupação com a representatividade também aparece no livro “Entre Curvas e Nós: O sonho de Neydjina e Davu”, criado a partir do projeto. A obra aborda os territórios de aprendizagem e a forma como o Centro trabalha a valorização dos cabelos das crianças, além de tratar da temática do racismo.
“Educação que vai além dos muros”
A proposta pedagógica também busca aproximar as crianças de suas famílias. Um dos principais instrumentos para isso é a Sacola Viajante, que leva livros e atividades para serem desenvolvidas em casa.
A iniciativa é tratada pela escola como uma extensão do processo de leitura realizado diariamente. Além do contato com os livros em sala, as crianças podem reler e recontar as histórias à sua maneira.
Em casa, os temas levados pela sacola também podem estar relacionados a dificuldades enfrentadas pela criança ou pela família, além de incentivar momentos de leitura e brincadeiras em conjunto.
A participação familiar também ocorre por meio de reuniões, conversas individuais, acompanhamento da assistência social e campanhas. Segundo Daiene, a escola procura trabalhar determinadas temáticas tanto com as crianças quanto com os familiares, inclusive por meio de cartilhas orientativas e palestras.
Para a coordenadora, o trabalho não termina dentro do espaço físico do Centro.
“Assim como o nosso processo educativo é integral, nós também percebemos um desenvolvimento, um alcance integral com as famílias. É uma educação que vai além dos muros. Ela trabalha com a família, com as crianças e com a comunidade”, explicou.
O reconhecimento internacional, por isso, é visto pela equipe como uma oportunidade de levar a experiência a outros espaços. Segundo Daiene Rayssa, a escola não esperava avançar na premiação, cuja participação ocorreu a partir de um convite da própria Fundação, mas agora pretende replicar a proposta.
Para a coordenadora, o próximo passo é continuar revendo e aprimorando o trabalho. É justamente essa ideia que ela considera mais importante diante do título de “melhor escola do mundo”.
O reconhecimento não significa que o Centro seja perfeito, mas que existe uma disposição permanente para avaliar as próprias práticas e construir a educação junto com as crianças.
“Não é uma questão de ser melhor do que outras escolas, e sim de como lidamos com as nossas questões, desse modo de educar que está sempre reavaliando as práticas e de que verdadeiramente é feito com as crianças, e não para elas”, finalizou.
Os três finalistas de cada categoria e os vencedores do World’s Best School Prizes 2026 serão anunciados em novembro. As 50 escolas finalistas também participarão de uma votação pública para definir a vencedora do Community Choice Award.


























