SUSTENTABILIDADE NO CAMPO

Biodiesel amplia demanda por soja e fortalece industrialização no país

Divulgação Amaggi

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A expansão do biodiesel no Brasil tem aumentado a demanda por soja e aberto novas frentes para o processamento do grão dentro do país. Além de reforçar o papel da oleaginosa na matriz energética, o avanço do biocombustível estimula a industrialização e agrega valor à produção.

Atualmente, por determinação legal, o diesel comercializado no Brasil deve conter 15% de biodiesel em sua composição, mistura conhecida como B15. Porém, algumas empresas do agronegócio já foram além da mistura obrigatória e passaram a utilizar o B100, combustível composto integralmente por biodiesel. A alternativa reduz o uso de diesel fóssil e pode contribuir para diminuir as emissões de gases de efeito estufa.

Em Mato Grosso, a AMAGGI está entre as empresas que incorporaram o B100 às operações. Os primeiros testes começaram em 2022, na Fazenda Itamarati, em Campo Novo do Parecis, onde máquinas agrícolas acumularam mais de 20 mil horas de operação abastecidas com o combustível. Segundo a companhia, o desempenho foi equivalente ao registrado com combustíveis fósseis. 

Após a fase de testes, a Fazenda Sete Lagoas, em Diamantino, passou a ter todo o maquinário agrícola abastecido exclusivamente com B100 e se tornou a primeira fazenda 100% biodiesel do grupo. 

O biocombustível utilizado é produzido com óleo degomado de soja na fábrica da própria AMAGGI, em Lucas do Rio Verde. A unidade fica ao lado de uma esmagadora da empresa, permitindo que parte da soja cultivada em Mato Grosso seja processada e transformada em combustível no próprio estado.  Além da Fazenda Sete Lagoas, o B100 também abastece parte da frota de caminhões e já recebeu autorização para testes em embarcações.

Para o presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, ampliar esse processamento significa criar condições para que uma parcela maior do valor da soja permaneça nas regiões produtoras.

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“A verticalização da cadeia da soja pode e deve gerar mais valor, mais empregos e desenvolvimento para Mato Grosso. Nós temos que ter mais ações para acelerar a adoção do uso de biodiesel no nosso país”, afirma.

Beber cita os Estados Unidos como exemplo de país que ampliou o processamento interno da oleaginosa após dificuldades comerciais com a China. Na avaliação dele, incentivar os biocombustíveis pode aumentar o esmagamento da soja no Brasil, estimular a indústria e gerar mais emprego e arrecadação.

Ciência transforma óleo em energia

Até chegar ao tanque das máquinas, o óleo da soja passa por uma transformação química chamada transesterificação. Segundo o diretor do Instituto de Química da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), professor Evandro Luiz Dall’Oglio, óleos vegetais ou gorduras reagem com um álcool, como metanol ou etanol, dando origem ao biodiesel e à glicerina.

Além da transformação química, o pesquisador destaca os ganhos ambientais associados à substituição dos combustíveis fósseis.

“A substituição parcial ou total dos combustíveis de origem fóssil por biocombustíveis contribui para diminuir os efeitos das mudanças climáticas, além de melhorar a qualidade do ar pela menor emissão de fuligem”, explica Dall’Oglio. 

Mato Grosso concentra 22% da produção

Dentro desse mercado, Mato Grosso ocupa posição estratégica. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o estado deve produzir cerca de 52 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e possui 18 usinas de biodiesel. Em 2025, essas unidades produziram e comercializaram 2,2 bilhões de litros, aproximadamente 22% da produção nacional.

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Para a EPE, transformar soja em biodiesel permite capturar maior valor econômico dentro do próprio estado, estimulando investimentos industriais e fortalecendo cadeias associadas. O processamento também gera coprodutos, como proteína destinada à alimentação animal, além de emprego e renda.

O impacto vai além da soja. Em 2025, o Brasil importou aproximadamente 16,8 bilhões de litros de diesel fóssil, com gasto de cerca de US$ 9,5 bilhões. No mesmo período, foram utilizados 9,7 bilhões de litros de biodiesel na mistura consumida no país. Para a EPE, a presença do biocombustível contribui para substituir parte das importações e manter recursos dentro da economia brasileira.

B100 exige controle e tecnologia

O avanço do biodiesel puro, entretanto, não significa que o B100 possa substituir imediatamente o diesel fóssil em qualquer operação.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabelece padrões de qualidade para o biodiesel por meio da Resolução nº 920/2023. Já as regras relacionadas à produção e à comercialização pelos produtores estão previstas na Resolução nº 987/2025.

Mudanças na legislação também facilitaram o uso voluntário de percentuais superiores à mistura obrigatória em atividades como frotas cativas, navegação, tratores e máquinas agrícolas. Ainda assim, a utilização exige cuidados com armazenamento, qualidade do combustível e condições dos equipamentos.

A própria EPE avalia que o B100 apresenta maior potencial, neste momento, em frotas cativas e operações acompanhadas de forma adequada, porém, uma expansão em larga escala ainda depende de compatibilidade tecnológica, desempenho dos motores, infraestrutura de abastecimento e requisitos estabelecidos pelos fabricantes.

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