MEDIDAS CAUTELARES

Lobista acusado de negociar sentenças deixa prisão 30 kg mais magro e relata depressão

Desde que deixou o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, imagens de Andreson com aparência debilitada viralizaram nas redes sociais.

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O lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, preso desde novembro de 2024 sob a acusação de intermediar a venda de sentenças judiciais em cortes superiores, foi colocado em prisão domiciliar na última quinta-feira (17), por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin. Ele agora cumpre medidas cautelares em sua residência, em Primavera do Leste (a 240 km de Cuiabá), monitorado por tornozeleira eletrônica, após apresentar um estado crítico de saúde física e mental.

Desde que deixou o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, imagens de Andreson com aparência debilitada viralizaram nas redes sociais, levantando questionamentos sobre as condições de saúde nas quais permaneceu durante os últimos oito meses de detenção. Segundo laudos médicos e relatos da própria defesa, ele perdeu mais de 30 kg e enfrenta um quadro severo de depressão, além de complicações clínicas que colocam sua mobilidade em risco.

De acordo com reportagem da Revista Veja, publicada no último fim de semana, o lobista sofre de múltiplas comorbidades agravadas durante o período de encarceramento, entre elas diabetes grave, crises de diarreia, dores crônicas com irradiação do peito às pernas e ausência de reflexos profundos. Laudos apontam ainda risco de paralisia irreversível.

O histórico clínico de Andreson inclui uma cirurgia bariátrica do tipo bypass realizada em 2020, que alterou significativamente o funcionamento de seu sistema digestivo. A técnica, que envolveu a retirada da parte final do intestino delgado e sua reimplantação próxima ao estômago, exige cuidados nutricionais rigorosos.

A defesa afirmou que, desde a prisão em 26 de novembro de 2024, Andreson deixou de receber os cuidados adequados à sua condição. “A cirurgia altera o mecanismo de absorção dos alimentos, impedindo que ele obtenha os nutrientes como um paciente comum. Sem suplementação adequada, isso tem consequências devastadoras”, explicou um dos advogados ao STF.

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Segundo os dados apresentados ao ministro Cristiano Zanin, Andreson pesava 93 kg ao ser detido. Ao longo da detenção, perdeu mais de 30% da massa corporal, chegando a um estado que os próprios médicos classificaram como “pré-caquexia”.

Carta a Zanin e sofrimento mental

A condição de saúde física se agravou com um quadro de depressão profunda. Em carta enviada ao ministro do STF, o lobista relatou pensamentos suicidas e desesperança em relação ao próprio futuro. O documento, divulgado pela Veja, revela o impacto psicológico do tempo na prisão: “Andreson se tornou um arquivo vivo do esquema que o incrimina e teme tanto pelo que viveu, quanto pelo que ainda poderá enfrentar”, afirma um trecho da publicação.

O médico particular que o acompanha também indicou risco iminente de o lobista acabar em uma cadeira de rodas, caso o quadro clínico continue evoluindo sem tratamento especializado.

Investigação

Andreson Gonçalves foi preso no âmbito da Operação Sisamnes, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso para apurar crimes como organização criminosa, corrupção ativa e passiva, exploração de prestígio e violação de sigilo funcional. As investigações tiveram início após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em dezembro de 2023.

O lobista é apontado como peça-chave em um esquema de negociação de decisões judiciais que envolveria integrantes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Os investigadores acreditam que Andreson intermediava os contatos entre advogados e servidores das Cortes para manipular sentenças em troca de vantagens financeiras.

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Durante os meses em que esteve preso em Mato Grosso, a Justiça autorizou que ele recebesse uma alimentação diferenciada, após constatar a perda de nove quilos nos primeiros dois meses de detenção. Foi permitido o envio de alimentos como carne assada, salame, sucos naturais e bebidas isotônicas, como Gatorade, de acordo com a necessidade clínica provocada pela cirurgia bariátrica.

Mesmo assim, ao ser transferido para o presídio da Papuda, em março deste ano, o estado de saúde de Andreson piorou significativamente.

Decisão judicial e medidas cautelares

A decisão do ministro Cristiano Zanin levou em consideração o risco de agravamento do quadro clínico do investigado. Além da prisão domiciliar, foram impostas medidas restritivas, como o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de contato com outros envolvidos no processo. O STF também determinou que ele seja acompanhado por equipe médica multidisciplinar.

A defesa agora tenta garantir que Andreson possa retomar o tratamento completo, com suplementação vitamínica, atendimento psicológico e exames de imagem para avaliação neurológica.

Investigação segue em andamento

Apesar da progressão da pena para o regime domiciliar, Andreson Gonçalves continua sob investigação. As autoridades ainda buscam confirmar a extensão de sua atuação no esquema de venda de sentenças e identificar todos os beneficiados pelas decisões judiciais manipuladas. O inquérito segue sob sigilo, mas a expectativa é de que novos desdobramentos sejam divulgados nos próximos meses.

A Operação Sisamnes continua sendo uma das principais frentes de combate à corrupção no Judiciário em Mato Grosso. O nome faz referência ao juiz persa Sisamnes, que foi condenado pelo rei Dario I após aceitar suborno — símbolo de intolerância à corrupção na antiguidade.

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