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‘Falar sobre saúde mental é um ato de cuidado coletivo’, diz psicóloga

Luciana destaca que o Setembro Amarelo não é apenas um mês de conscientização, mas uma oportunidade de transformar a forma como a sociedade enxerga o sofrimento emocional.

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No mês dedicado à prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo ganha destaque em todo o país ao chamar a atenção para a necessidade de falar sobre saúde mental sem preconceito. O suicídio, ainda cercado de tabus, é um problema de saúde pública que impacta milhares de famílias brasileiras todos os anos. Para aprofundar esse debate, o Cuiabá Notícias conversou com a psicóloga especialista em saúde mental Luciana Fontes Kalix, que explica a relevância da campanha, os sinais de alerta que familiares e amigos devem observar, e como a escuta e o acolhimento podem salvar vidas.

Na entrevista, Luciana destaca que o Setembro Amarelo não é apenas um mês de conscientização, mas uma oportunidade de transformar a forma como a sociedade enxerga o sofrimento emocional.

“Quando oferecemos escuta qualificada, acolhimento e acesso a cuidados em saúde mental, estamos contribuindo diretamente para a prevenção”, afirma a especialista.

Durante todo o mês campanhas, palestras são organizadas em empresas públicas e privadas onde tem é abordado como forma de prevenção e orientação de combate ao suicídio. 

Cuiabá Notícias – Por que o Setembro Amarelo é tão importante?

Luciana Fontes Kalix – O Setembro Amarelo é fundamental porque coloca em evidência um tema que ainda é cercado de tabus: o suicídio. Ao promover a conscientização sobre saúde mental, a campanha ajuda a quebrar o silêncio, combater o estigma e incentivar o diálogo sobre sofrimento emocional. O suicídio é uma questão de saúde pública, proveniente de múltiplos fatores. Muitas pessoas enfrentam dores psíquicas intensas, mas não se sentem à vontade para pedir ajuda — seja por medo, vergonha ou falta de informação.

A importância dessa campanha está justamente em abrir espaço para discussões responsáveis. Quando oferecemos escuta qualificada, acolhimento e acesso a cuidados em saúde mental, contribuímos diretamente para a prevenção. Além disso, ela reforça o papel da sociedade como rede de apoio. Amigos, familiares e colegas podem ser agentes de cuidado, desde que atentos aos sinais e dispostos a acolher sem julgamento.

Cuiabá Notícias – Muitas pessoas ainda têm preconceito em falar sobre saúde mental. Como podemos quebrar esse tabu?

Luciana Fontes Kalix – Quebrar o tabu começa com informação, empatia e diálogo aberto. Por muito tempo, questões emocionais foram vistas como fraqueza ou algo a ser escondido. Isso gerou preconceito e afastou muita gente da ajuda de que precisava. Para mudar esse cenário, precisamos falar sobre saúde mental com naturalidade — nas escolas, nas famílias, nos ambientes de trabalho e nos meios de comunicação.
Falar sobre saúde mental é um ato de cuidado coletivo. Quanto mais pessoas se sentirem seguras para compartilhar suas dores, mais estaremos construindo uma sociedade saudável e menos solitária.

Cuiabá Notícias – Quais são os sinais de alerta que amigos e familiares podem perceber em alguém que está em sofrimento?

Luciana Fontes Kalix – Existem alguns sinais que merecem atenção:

  • mudanças bruscas de comportamento, como isolamento, irritabilidade, apatia ou perda de interesse em atividades antes prazerosas;

  • alterações no sono e no apetite — dormir demais ou muito pouco, comer em excesso ou perder o apetite;

  • falas negativas sobre si mesmo, como “sou um peso” ou “seria melhor se eu não estivesse aqui”;

  • descuido com a aparência ou higiene;

  • despedidas incomuns ou entrega de pertences pessoais;

  • abuso de álcool ou drogas;

  • histórico de tentativas anteriores ou perdas significativas recentes.

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Se alguém apresenta esses sinais, o mais importante é oferecer escuta, apoio e incentivar a busca por ajuda profissional.

Cuiabá Notícias – Como abordar alguém que parece estar passando por um momento difícil sem invadir o espaço dessa pessoa?

Luciana Fontes Kalix – O primeiro passo é mostrar presença e disponibilidade, sem pressão. Às vezes, um simples “estou aqui se você quiser conversar” já abre uma porta importante. O ideal é evitar julgamentos ou cobranças e oferecer um espaço seguro onde a pessoa possa se expressar no seu tempo.
Frases como:

“Tenho percebido que você não está bem, quer conversar?”

“Se quiser desabafar, estou aqui para te ouvir.”

“Você não está sozinho(a), podemos procurar ajuda juntos.”

Essas abordagens são acolhedoras e não invasivas. Se a pessoa aceitar conversar, o mais importante é ouvir com empatia, sem tentar resolver tudo ou dar respostas prontas. Muitas vezes, o que ela mais precisa é ser ouvida e compreendida.

Cuiabá Notícias – Qual é o papel da escuta no processo de prevenção?

Luciana Fontes Kalix – A escuta é uma das ferramentas mais poderosas de prevenção. Quando alguém em sofrimento encontra quem o ouça com atenção e empatia, isso pode representar um ponto de virada. Muitas vezes, a pessoa não busca soluções, mas sim um espaço seguro para se expressar.
Além da escuta, as políticas públicas são fundamentais. Serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a capacitação de profissionais, campanhas educativas e a inclusão da saúde mental nas escolas são medidas concretas de acolhimento e prevenção. Uma rede pública de apoio envia a mensagem: “Você não está sozinho(a), sua vida importa e há ajuda disponível.”

Cuiabá Notícias – Que tipo de ajuda está disponível para quem busca apoio psicológico pelo SUS?

Luciana Fontes Kalix – O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS), que faz o acolhimento inicial e, quando necessário, encaminha para serviços especializados.

Os CAPS funcionam em regime de portas abertas e contam com equipes multiprofissionais, como psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e enfermeiros. Essa rede foi criada para garantir que qualquer pessoa em sofrimento psíquico, crise ou dependência química tenha acesso a cuidado integral.

Cuiabá Notícias – Como familiares e amigos podem oferecer suporte sem julgar?

Luciana Fontes Kalix – O suporte começa com a escuta empática e o respeito pelo tempo da pessoa. Quem está em sofrimento não precisa ouvir frases como “isso é frescura” ou “você precisa reagir”. Isso só causa mais dor.
É preciso evitar conselhos prontos ou comparações. Cada dor é única. Mostrar que se importa, estar presente e incentivar a busca por ajuda profissional são atitudes que fazem toda a diferença.

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Cuiabá Notícias – E quando alguém recusa ajuda, mesmo dando sinais de sofrimento?

Luciana Fontes Kalix – Essa é uma situação desafiadora. O mais importante é manter o vínculo, demonstrar cuidado e não desistir da pessoa. Pressionar pode gerar afastamento, mas o acolhimento contínuo abre espaço para que, no tempo dela, aceite ajuda.
Em casos mais graves, quando há risco iminente de vida, é necessário acionar o SAMU (192) ou procurar orientação em um CAPS ou unidade básica de saúde.

Cuiabá Notícias – Como escolas e ambientes de trabalho podem contribuir para a valorização da vida?

Luciana Fontes Kalix – Esses espaços são fundamentais, pois concentram grande parte das relações sociais. É importante que escolas e empresas promovam rodas de conversa, campanhas educativas, capacitação de profissionais para identificar sinais de sofrimento e criem ambientes de escuta ativa.

A valorização da vida passa pelo cuidado coletivo, pela empatia e pelo fortalecimento dos vínculos interpessoais.

Cuiabá Notícias – De que forma a sociedade pode se tornar mais acolhedora em relação à saúde mental?

Luciana Fontes Kalix – Precisamos desconstruir preconceitos, como a ideia de que sofrimento psíquico é “frescura” ou “falta de fé”. Saúde mental é parte essencial da saúde integral.

Atitudes simples podem transformar: falar abertamente sobre emoções, incluir educação emocional nas escolas, criar ambientes de trabalho mais humanos, ampliar o acesso a serviços de saúde e valorizar a escuta em todos os espaços.

Cuiabá Notícias – As redes sociais ajudam ou atrapalham nesse processo de prevenção?

Luciana Fontes Kalix – As redes sociais têm um papel ambíguo. Por um lado, podem ser ferramentas de conscientização, divulgação de campanhas como o Setembro Amarelo, espaço de apoio e relatos de superação.

Por outro, o uso inadequado pode intensificar o sofrimento, especialmente com a exposição a comparações, discursos de ódio, cyberbullying ou romantização da dor. O uso responsável e crítico é fundamental.

Cuiabá Notícias – Qual mensagem você deixaria para quem está passando por um momento difícil?

Luciana Fontes Kalix – Quero dizer: você não está sozinho(a). Pode parecer que a dor não vai passar, mas há caminhos, há ajuda e há pessoas dispostas a ouvir sem julgamento. Falar sobre o que você sente não é fraqueza, e pedir ajuda é um ato de coragem e de amor próprio.

Se precisar, procure alguém de confiança, um CAPS, uma UBS, ou ligue para o CVV, no 188. O atendimento é gratuito, 24 horas por dia, com sigilo absoluto. A sua vida importa.

Cuiabá Notícias – O que cada um de nós pode fazer, no dia a dia, para contribuir com a valorização da vida?

Luciana Fontes Kalix – Escutar de verdade, sem minimizar a dor do outro. Evitar frases que diminuem o sofrimento. Falar sobre saúde mental de forma aberta. Compartilhar informações confiáveis sobre onde encontrar apoio. Ser gentil, inclusive nas redes sociais — nunca sabemos o que o outro está enfrentando.

E não menos importante: cuidar de si mesmo. O autocuidado também é parte da valorização da vida.

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