A homeostase não é apenas a expressão do equilíbrio interno dos seres vivos; ela também pode ser entendida em escala planetária. Segundo a teoria de Gaia, proposta por James Lovelock e Lynn Margulis na década de 1970, a Terra funciona como um sistema autorregulável e, de certa forma, vivo, no qual a biosfera (parte do planeta que possui vida), a atmosfera (camada de gases que envolve o planeta), a hidrosfera (conjunto da parte líquida que cobre o planeta) e a litosfera (camada superior da superfície do planeta Terra) interagem para manter condições físico-químicas estáveis que favorecem a vida.
A ideia é que o planeta, por meio de ciclos biogeoquímicos e de retroalimentação negativa (mecanismo de regulação em que a resposta a um estímulo inibe ou reduz a intensidade do estímulo inicial, promovendo estabilidade) entre seus componentes, tende a manter o ambiente global dentro de faixas que tornam possível a existência de organismos. Essa visão sugere uma analogia com a homeostase do corpo humano: o objetivo é manter condições adequadas para o funcionamento das células e dos órgãos. No organismo, sensores, centros de controle e efetores regulam a temperatura, o pH (medida de acidez do sangue), a oxigenação e outros parâmetros; na Terra, processos como a evaporação, a circulação atmosférica, os ciclos do carbono e os ecossistemas cooperam para manter o clima e a disponibilidade de recursos dentro de limites que permitem a vida.
Um exemplo de “homeostase da Terra” pode ser apresentado pela relação com a radiação solar. A atividade solar apresenta ciclos de elevação e diminuição da temperatura de aproximadamente 11 anos; essas oscilações afetam, indiretamente, o clima terrestre. A luz solar aumenta ou diminui, e a atmosfera reage por meio de retroalimentações que tendem a moderar variações extremas: maior aquecimento pode aumentar a evaporação, a formação de nuvens e a refletividade da luz solar, o que, por sua vez, pode devolver parte da radiação ao espaço. Em termos biológicos, quando a temperatura da pele aumenta, os mecanismos de dissipação de calor (vasodilatação, sudorese) ajudam a devolver o calor ao ambiente. Parece haver uma “intencionalidade” entre o planeta e os organismos vivos em ajustarem seus parâmetros vitais ou que possibilite a vida.
É crucial reconhecer que, na natureza, competição coexiste com cooperação, contudo, a cooperação parece prevalecer. A cooperação ocorre em níveis que vão das moléculas aos ecossistemas, pois os sistemas naturais dependem de interações colaborativas para funcionar. Por exemplo, a cooperação entre microrganismos na decomposição de matéria orgânica, as relações de mutualismo entre plantas e fungos, e as redes de troca de nutrientes que sustentam ciclos vitais demonstram que o sucesso de um sistema biológico frequentemente depende da colaboração entre seus componentes.
A partir da Revolução Científica (séculos XVI–XVII), houve uma profunda transformação na relação homem-natureza. A natureza passou a ser entendida, em grande parte, como objeto de estudo, desacoplada de uma visão sagrada e destituída de propósito, tornando-se passível de ser descrita e quantificada. O homem ganhou um papel central no Universo e, por meio da razão, buscou interpretar e moldar a Natureza a seu favor. Esse marco trouxe benefícios imensos, mas também implicou em um distanciamento crescente entre a humanidade e o funcionamento orgânico da Terra, que é um sistema integrado e vivo.
Essa mudança epistemológica contribuiu para o desenvolvimento da chamada antroposfera — presença humana que, ao longo de milênios, transformou a natureza conforme suas necessidades, impulsionada por instituições, tecnologias e, em muitos casos, pela lógica dominante de acumulação. A exploração intensiva de recursos naturais, alimentada por sistemas econômicos que privilegiam o lucro, como o capitalismo, gerou danos ambientais em larga escala e colocou em xeque a capacidade da Terra de manter condições estáveis de vida. Essas discrepâncias entre o comportamento humano e a lógica do planeta criaram tensões persistentes que podem ameaçar os serviços ecossistêmicos de que toda vida depende.
Qual a relação entre a “homeostase da Terra” e a saúde humana? A fisiologia é a disciplina básica da saúde que estuda o funcionamento do corpo humano com a premissa central da homeostase. Pois a vida depende da capacidade de manter condições internas estáveis. Essa estabilidade interna, por sua vez, depende de um ambiente externo relativamente estável — condição que a Terra, segundo a Teoria de Gaia, ajuda a sustentar por meio de seus processos regulatórios. Quando as atividades humanas alteram o clima, a qualidade do ar e a disponibilidade de água, a pressão sobre os mecanismos fisiológicos humanos aumenta, elevando o risco de doenças e morte. Assim, entender a fisiologia humana em uma concepção mais integral e sistêmica nos convida a reconhecer nossa dependência de ecossistemas saudáveis e a responsabilidade de agir para preservar esse equilíbrio planetário.
Em suma, a fisiologia humana e a teoria de Gaia convergem na ideia de que somos parte de um sistema único, cujos componentes interagem em escalas de tempo e espaço distintas. Nossa saúde está entrelaçada à saúde do planeta; preservar a homeostase da Terra é, em última análise, preservar a nossa própria saúde.
Alcione Lescano de Souza Junior é doutor em Fisiologia Humana pela Universidade do Estado de São Paulo-SP e docente no curso de Medicina da Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT- Cáceres-MT.






























