O som do lápis tocando o papel e a sobreposição cuidadosa das cores. É nesse gesto minucioso, paciente e profundamente íntimo que a artista visual Emanuelle Calgaro constrói sua obra. Em “Travessia”, exposição em cartaz até o dia 12 de março no Corredor Cultural do Shopping Estação, o público é convidado a entrar nesse universo onde pássaros, sensações e cura se entrelaçam.
Nascida em Toledo, no Paraná, Emanuelle encontrou ainda na infância o desenho como refúgio e território seguro. Os longos invernos, que mantinham as crianças dentro de casa, foram também o cenário onde a arte passou a ocupar um lugar central em sua vida. “Aquele era o meu mundo, meu lugar de pertencimento”, relembra.
Desde 2001, Mato Grosso tornou-se casa e identidade. Apesar de não ter nascido aqui, Emanuelle se reconhece como artista mato-grossense. “O estado me acolheu, me deu oportunidades e expandiu meus horizontes”, afirma. O Pantanal, sua fauna, a luz intensa e o calor atravessam sua produção de forma constante — mesmo quando ela está longe fisicamente do bioma.
A arte, porém, não se impôs sem conflitos. Como muitos artistas, ouviu que deveria escolher um caminho “mais seguro”. Ainda assim, nunca deixou de criar. O ponto de ruptura veio em 2019, após um pneumotórax espontâneo deixá-la na UTI por 8 dias. Diante da fragilidade da vida, o desenho tornou-se propósito.
Com poucos materiais à disposição, Emanuelle retomou o fazer artístico usando lápis de cor e papel. O que começou como exercício de recuperação física e emocional transformou-se em um corpo de trabalho consistente, técnico e conceitual. A partir daí, os pássaros passaram a ocupar o centro de sua pesquisa.
Executadas inteiramente com lápis de cor aquarelável e giz pastel seco, suas obras exigem precisão, controle e silêncio. “O lápis me permite camadas, profundidade e concentração absoluta. É um trabalho de presença”, explica. Cada pássaro nasce da observação atenta — muitas vezes direta na natureza — e de uma conexão intuitiva com forma, cor e energia.
Para Emanuelle, os pássaros simbolizam liberdade. Uma liberdade que não é apenas física, mas emocional e espiritual. “Eles me lembram que não posso esquecer dessa busca”, diz. Em “Travessia”, essas aves deixam o estado de suspensão e se lançam ao voo, refletindo o momento atual da artista: expansão, reconhecimento e novos caminhos.
A escolha de expor em um shopping carrega também um posicionamento. Ao ocupar um espaço cotidiano, a artista rompe com a ideia de que a arte pertence apenas a museus ou galerias tradicionais. “Levar a arte para espaços acessíveis é uma forma de democratizar o olhar”, defende. A mostra é gratuita e aberta a todos os públicos.
O reconhecimento internacional veio nos últimos anos, com prêmios e exposições na Itália e na Áustria, incluindo a eleição como artista favorita do público no Prêmio Arte Ânima Latina, em Perugia. Ainda assim, Emanuelle mantém sua base em Cuiabá, onde cria, pesquisa e projeta novas séries.
“Travessia” é, antes de tudo, um convite. Um chamado para quem observa desacelerar, sentir e atravessar junto. Até o dia 12 de março, os pássaros de Emanuelle Calgaro seguem em voo — e quem se aproxima talvez descubra que também carrega dentro de si o desejo de partir, mudar e se reinventar.
Serviço:
O quê? Exposição Travessia, de Emanuelle Calgaro.
Onde? Corredor Cultural do Shopping Estação. Av. Miguel Sutil, 9352, Santa Rosa, Cuiabá.
Quando? Até o dia 12 de março. De segunda a sábado das 10 às 22h, e aos domingos das 14h às 20h.































