Giovanna Marchezine

Férias não podem ser sinônimo de confinamento digital

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A mochila escolar foi guardada, o despertador deixou de tocar tão cedo e a rotina ficou mais leve. Mas, em muitas casas, a criança apenas trocou a tela usada durante as aulas pela tela do celular, do tablet, da televisão ou do videogame.

Nas férias, o tempo parece aumentar. Enquanto os filhos estão em casa, muitos pais continuam trabalhando, administrando compromissos e tentando conciliar uma rotina que nem sempre permite passeios, atividades programadas ou acompanhamento durante todo o dia. Nesse cenário, as telas acabam ocupando um espaço importante: entretêm, ajudam a passar o tempo e, em alguns momentos, tornam o dia possível.

A tecnologia faz parte da infância atual e não precisa ser tratada como inimiga. O cuidado começa quando ela deixa de ser uma das opções de lazer e passa a ocupar praticamente todas as horas livres da criança.

Como oftalmopediatra, vejo as férias como uma oportunidade para observar como a criança utiliza a visão ao longo do dia.

Celulares e tablets exigem que os olhos permaneçam concentrados em uma distância muito próxima. Quando a criança está envolvida em um jogo ou em uma sequência de vídeos, pode passar longos períodos nessa mesma condição e piscar menos do que o habitual.

Ao final do dia, podem aparecer ardência, ressecamento, lacrimejamento, visão embaçada, dor de cabeça, sensação de peso nos olhos e dificuldade de concentração. Nem sempre, porém, a criança consegue explicar o que está sentindo.

Em vez de reclamar de cansaço visual, ela pode esfregar os olhos, ficar irritada, perder o interesse pela atividade ou aproximar ainda mais o rosto da tela. São comportamentos que merecem ser observados.

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Durante as férias, a mudança na rotina também pode revelar outros sinais. Apertar os olhos para enxergar, inclinar a cabeça, cobrir um dos olhos, aproximar-se excessivamente da televisão, tropeçar com frequência ou evitar brincadeiras que exigem atenção visual são atitudes que podem indicar a necessidade de uma avaliação oftalmológica.

O uso prolongado das telas também costuma diminuir o tempo dedicado às atividades ao ar livre. E esse contato com ambientes externos é importante para o desenvolvimento visual infantil.

Quando brinca fora de casa, a criança alterna o olhar entre diferentes distâncias, movimenta o corpo, explora o espaço ao redor e tem contato com a luz natural. Não é necessário organizar grandes viagens ou preencher todos os dias com passeios. Uma caminhada, uma ida à praça, uma brincadeira no quintal ou alguns minutos de bicicleta já ajudam a interromper a sequência de horas em frente aos dispositivos.

Dentro de casa, também existem alternativas simples. Desenhar, montar brinquedos, criar histórias, ajudar no preparo de uma receita ou construir uma cabana com lençóis são atividades que estimulam a criatividade e permitem que os olhos e o corpo experimentem outros tipos de esforço.

Mais importante do que estabelecer uma proibição difícil de cumprir é construir uma rotina possível. Os pais podem definir momentos para o uso das telas, evitar que todas as refeições aconteçam diante dos aparelhos e incentivar pequenas pausas ao longo do dia.

Depois de algum tempo no celular ou no videogame, a criança pode levantar, beber água, olhar pela janela, caminhar ou mudar de atividade. Essas interrupções simples ajudam a reduzir o desconforto causado pelo esforço visual contínuo.

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A distância do aparelho, a iluminação do ambiente e a postura também precisam ser observadas. Usar o celular muito próximo do rosto, permanecer em um local escuro ou assistir a vídeos deitado por longos períodos pode aumentar o cansaço dos olhos.

Os hábitos dos adultos igualmente fazem parte dessa construção. Momentos em que toda a família deixa os aparelhos de lado para conversar, comer ou realizar alguma atividade juntos podem produzir mais efeito do que regras impostas apenas às crianças.

As férias não precisam ser preenchidas por uma programação perfeita. Também não precisam se transformar em uma disputa diária pelo celular. O objetivo é impedir que todas as experiências da infância sejam substituídas por uma única forma de entretenimento.

A criança pode assistir a desenhos, jogar e conversar com os amigos pela internet. Mas também precisa correr, imaginar, conversar, observar o que está longe, descobrir novos espaços e até aprender a lidar com alguns momentos de tédio.

O problema não é olhar para uma tela durante as férias. É passar tanto tempo diante dela que a criança deixe de olhar para o mundo.

Férias de verdade também precisam oferecer descanso aos olhos, movimento para o corpo e espaço para que a infância aconteça fora do ambiente digital.

Dra. Giovanna Marchezine é médica oftalmologista com atuação voltada à oftalmopediatria e ao tratamento do estrabismo em crianças e adultos. Reconhecida por sua dedicação à saúde ocular infantil e aos cuidados especializados com o alinhamento dos olhos, ela desenvolve um trabalho que une conhecimento técnico, sensibilidade no atendimento e compromisso com o diagnóstico precoce.

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