GIOVANA MARCHEZINE

O olhar da mãe que a médica também aprende a enxergar

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Existem olhares que pedem socorro em silêncio. Na infância, muitas vezes, a criança ainda não sabe explicar que não enxerga bem, que algo incomoda, que a luz atrapalha ou que existe uma dificuldade que ela mesma não consegue nomear. Antes de qualquer palavra, quase sempre existe uma mãe que percebe.

Ao longo da minha trajetória na oftalmopediatria, aprendi a observar além do olhar da criança: aprendi a enxergar o olhar da mãe que chega com ela. Esse olhar diz muito. Às vezes, chega carregado de medo, culpa, dúvida, angústia ou desespero. É o olhar de quem quer proteger, precisa entender e busca uma resposta, mesmo temendo o que pode ouvir.

É a mãe quem, muitas vezes, nota o olho que desvia, a criança que se aproxima demais da tela, a dificuldade na escola, o incômodo com a claridade ou aquele comportamento diferente que passaria despercebido. Quando ela chega ao consultório, não traz somente uma queixa médica. Traz uma história, uma preocupação e uma pergunta silenciosa: “Meu filho vai ficar bem?”

Como médica, compreendo a importância do diagnóstico correto, do tratamento adequado e do acompanhamento especializado. A visão de uma criança interfere diretamente no desenvolvimento, na aprendizagem, na autonomia, na segurança e na forma como ela vai se relacionar com o mundo. Por isso, cada caso exige técnica, atenção e responsabilidade.

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Como mãe de três filhos, também reconheço o peso emocional por trás daquele olhar materno. Muitas vezes, antes da consulta, essa mãe já perdeu noites de sono. Já se perguntou se deveria ter percebido antes. Já sentiu medo de ter falhado. Já imaginou cenários difíceis. Ainda assim, buscou ajuda, porque o amor materno também se revela na coragem de procurar respostas.

Foi por esses olhares silenciosos que escolhi cuidar da visão das crianças. Na oftalmopediatria, o cuidado passa pelo acolhimento da família, pela explicação clara, pela segurança transmitida e pela presença diante de quem chega fragilizado.

Uma mãe escolhe uma profissional, até então desconhecida, para entrar na vida do seu filho. Mesmo que por um período, essa confiança é imensa. Ela entrega aquilo que tem de mais precioso e espera encontrar conhecimento técnico, humanidade, responsabilidade e acolhimento.

Por isso, observo muito o olhar das mães. O olhar antes do diagnóstico, durante a explicação, no momento da decisão e, principalmente, depois. Depois do tratamento iniciado. Depois da cirurgia realizada. Depois da espera. Depois do medo.

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Existe um instante em que esse olhar muda. O olhar que chegou com desespero começa a dar lugar ao alívio. A tensão suaviza. A respiração muda. A mãe percebe que existe um caminho, que seu filho foi cuidado e que ela não está sozinha. Esse olhar de alívio é uma das respostas mais bonitas que a medicina pode receber.

Neste Dia das Mães, minha homenagem é para essas mulheres que percebem antes de todos, carregam preocupações silenciosas, enfrentam a culpa, buscam respostas e confiam. Mães que chegam com os olhos cheios de medo e, depois do cuidado, reencontram nos próprios olhos um pouco de paz.

Quando cuidamos da visão de uma criança, também acolhemos o coração de uma mãe. Esse olhar materno, que começa tantas vezes em desespero e se transforma em alívio, merece ser visto, respeitado e cuidado.

 

Dra. Giovanna Marchezine é médica oftalmologista com atuação voltada à oftalmopediatria e ao tratamento do estrabismo em crianças e adultos. Reconhecida por sua dedicação à saúde ocular infantil e aos cuidados especializados com o alinhamento dos olhos, ela desenvolve um trabalho que une conhecimento técnico, sensibilidade no atendimento e compromisso com o diagnóstico precoce.

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