Um vídeo com imagens de cães extremamente magros, doentes, com diarreia e até mortos, divulgado nesta segunda-feira (04), colocou o Canil Municipal de Cuiabá como alvo de uma denúncia grave de maus-tratos (assista abaixo). O material, que já circula nas redes sociais, faz parte de um dossiê protocolado no Ministério Público Estadual (MPE) e na Delegacia Especializada do Meio Ambiente (DEMA), reunindo fotos, vídeos e conversas internas de ex-funcionários.
O documento aponta um cenário de negligência sistemática, com relatos de animais sem tratamento adequado, estruturas precárias e falhas graves no manejo. Entre os casos mais chocantes está o de um filhote que, segundo a denúncia, teria sido colocado ainda vivo no freezer destinado a animais mortos. “Abri o saco e o filhote estava vivo dentro do freezer. Tirei ele, enrolei num pano, mas ele acabou morrendo depois”, relatou a ex-funcionária, identificada pelas iniciais J.R.S. O episódio consta em boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, que classifica o caso como “maus-tratos com resultado morte”.
As denúncias ganharam ainda mais repercussão quando protetores independentes e representantes de ONGs de proteção animal tiveram acesso ao material completo. As imagens mostram animais em condições consideradas críticas, muitos debilitados, com ferimentos expostos e sinais de abandono dentro das próprias instalações do canil.
“Eu fiquei profundamente chocada e revoltada. Tínhamos a esperança de que o Bem-Estar Animal fosse um porto seguro, mas descobrir que, na verdade, os animais estavam sendo negligenciados foi uma decepção cruel e uma traição imperdoável à causa”, afirmou a protetora independente Sandra Barbosa à reportagem.
Os relatos indicam que os problemas vão além de casos isolados. Segundo os denunciantes, havia superlotação, falta de higienização e ausência de separação entre animais doentes e saudáveis, criando risco sanitário. Trecho do documento protocolado no MPE descreve “recipientes de água com lodo e fezes, além de animais mantidos sem acesso adequado à alimentação e água” .
Outros pontos relatados incluem telhados danificados, exposição constante à chuva, baias alagadas e improvisação de abrigos com materiais descartados. Funcionários da limpeza, segundo os relatos, eram responsáveis por tratar ferimentos graves, incluindo casos de miíase (bicheira), enquanto animais debilitados aguardavam atendimento veterinário.
Há ainda denúncias de que animais com leishmaniose não recebiam tratamento adequado e eram mantidos em sofrimento até a eutanásia. Em alguns casos, segundo os relatos, a falta de assistência levava à morte gradual dos animais. Filhotes também teriam morrido por desnutrição e desidratação. “Esses filhotes morreram um por um. Eu comprava água de coco com meu dinheiro para hidratar”, relatou uma ex-funcionária.
O material aponta também que animais eram mantidos em espaços inadequados, como gaiolas pequenas e corredores improvisados, sem isolamento e com um único recipiente de alimentação para vários filhotes. Em alguns registros, animais mortos aparecem próximos a outros ainda vivos.
Outro lado
Em nota, a Prefeitura de Cuiabá negou as acusações e afirmou que as denúncias “não correspondem à realidade atual da unidade”. Segundo a gestão, parte das imagens divulgadas seria antiga, registrada durante o período de reformas do canil.
A administração municipal também declarou que não há comprovação do caso envolvendo freezer e destacou que vistorias recentes, como a realizada pelo Juizado Volante Ambiental (Juvam), não identificaram irregularidades. A prefeitura afirma ainda que o local passou por melhorias estruturais, reforço da equipe técnica e implantação de protocolos sanitários.
Apesar disso, as denúncias seguem sob investigação do Ministério Público e da Polícia Civil, que devem apurar se houve negligência, maus-tratos e eventual responsabilidade de gestores e servidores.























