REPRESENTATIVIDADE HISTÓRICA

Após 190 anos, indígenas chegam à ALMT: “Estamos aldeando esse espaço”

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Pela primeira vez em quase dois séculos de existência, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) passa a ter uma representante indígena em sua composição. A advogada Eliane Xunakalo, do povo Kurâ-Bakairi, assumiu o cargo de deputada estadual, marcando um momento histórico para a política mato-grossense e brasileira. “Estamos aqui demarcando, aldeando esse espaço, para dizer que nós também fazemos parte dessa sociedade”, afirmou.

Eliane é a primeira mulher indígena empossada como deputada estadual no Brasil. Natural da Terra Indígena Santana, em Nobres (MT), construiu sua trajetória na militância. “Desde pequena eu sempre fui militante. Não foi uma escolha pessoal, foi uma escolha do coletivo, do povo”, disse. Formada em Direito e pós-graduada em Administração Pública, ela também é a primeira mulher de seu povo a alcançar esse nível de formação acadêmica.

Antes de chegar ao Parlamento, atuou como presidente da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt) e integra a Associação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). Sua entrada na política institucional ocorreu em 2022, após convite de lideranças indígenas. “Eu relutei, porque a gente tem uma crença sobre política, talvez errada. Mas fui convencida e vim com o apoio das lideranças”, relembrou.

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No exercício do mandato, Eliane afirma que sua principal missão é dar voz aos povos originários dentro do Legislativo. “Estamos usando a tribuna exatamente para levar as vozes dos nossos povos para todo o estado”, destacou. Logo na primeira semana como deputada, promoveu audiência pública para debater economia indígena e os caminhos para fortalecer a autonomia dos povos originários no estado. “Nosso mandato quer deixar encaminhado um projeto de lei que beneficie os povos indígenas, defendendo a nossa coletividade”, pontuou.

Mato Grosso abriga 46 povos indígenas, com cerca de 60 mil pessoas distribuídas em 74 territórios regularizados e aproximadamente 20 áreas em processo de demarcação. Essas populações estão presentes nos três principais biomas do estado — Amazônia, Cerrado e Pantanal — e em mais de 90 municípios. Apesar da presença expressiva, Eliane aponta que persistem barreiras sociais. “A nossa sociedade não acolhe os povos indígenas. Infelizmente, essa é a realidade”, afirmou.

Ao mesmo tempo em que critica a falta de inclusão, a deputada reforça o protagonismo indígena na formação do estado. “Nós somos os donos da casa”, disse, destacando as contribuições culturais, sociais e econômicas dos povos originários ao longo da história.

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Xunakalo deve permanecer no cargo até meados de maio. O mandato é temporário — ela assumiu a vaga do deputado Lúdio Cabral (PT) em razão do rodízio partidário. Ainda assim, acredita que o espaço institucional pode e deve refletir a diversidade da sociedade que representa. “Nós queremos permanecer, levar debates e construir ações que façam sentido para toda a sociedade”, concluiu.

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