Prestar homenagem é uma forma de reconhecimento e apreço por algo, um evento ou uma pessoa. Isso simbolicamente reflete o que a sociedade valoriza, admira e agradece ao longo do tempo e em um contexto específico. A homenagem reforça valores, fortalece a memória coletiva e motiva futuras gerações. As artes visuais, como murais e grafites; a construção de monumentos; estátuas; prêmios e a nomeação de ruas, espaços e edifícios são algumas maneiras de reconhecer pessoas, eventos e conquistas.
Existe uma desigualdade significativa entre os nomes masculinos e femininos atribuídos às vias, praças e avenidas de Cuiabá. É frequente escutar denominações como “Avenida Getúlio Vargas”, “Rua Cândido Mariano” e “Avenida Fernando Correia”, enquanto referências a mulheres são escassas. Isso revela a importância de analisar, através de dados, a distribuição desses nomes segundo o gênero.
O objetivo aqui não é criticar os que escolheram os nomes das ruas, avenidas e praças, mas sim destacar a forma sutil com que o machismo e o racismo se manifestam de maneira quase invisível na estrutura social das cidades. Realizar uma análise crítica dos elementos que compõem uma cidade é como desvelar os valores e crenças da sociedade que a formou e nela reside. É sob essa ótica que espero evidenciar a desigualdade na valorização excessiva dos homens em relação às mulheres na nomeação de vias, avenidas e travessas de Cuiabá.
Para sustentar essa hipótese, empreguei como abordagem metodológica ferramentas estatísticas e documentos oficiais como principais fontes de dados. As informações foram extraídas do relatório “Logradouros Públicos de Cuiabá”, que foi publicado em 2010 pelo Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU) da cidade. Utilizei o Microsoft Excel para a análise dos dados e, em alguns casos, recorri à ferramenta de IA do Adobe Acrobat para coletar e organizar as informações. O documento mencionado compila os nomes de vias, ruas, avenidas, travessas e praças que se encontram na macrozona urbana de Cuiabá, abrangendo não apenas a cidade, mas também os distritos de Águaçu, Coxipó da Ponte, Coxipó do Ouro, Guia, Nova Esperança, Sucuri e áreas de logradouros em regiões rurais.
A primeira etapa consistiu em contar as vias da macrozona de Cuiabá. Depois, foi feita a distinção entre os nomes de ruas, avenidas, travessas e praças relacionadas a homens e mulheres, utilizando para isso a ferramenta de inteligência artificial do Adobe Acrobat. Também foi imprescindível realizar uma verificação para garantir que a separação feita pela IA estivesse correta, pois nomes ambíguos poderiam ser alocados na categoria inadequada. Por último, os dados (nomes e vias) já organizados foram tabulados e quantificados.
Apesar de a quantidade de ruas em Cuiabá ser imprecisa — até mesmo para o IPDU, já que muitas delas não foram encontradas, foram nomeadas incorretamente ou transformadas em outras áreas — a pesquisa revelou um total de 4.366 ruas. Dessas, apenas 5% têm nomes de pessoas, enquanto a maioria é identificada por números ou letras. Em uma edição de 2012 da revista Mundo Estranho, Cuiabá foi apontada como a cidade com o maior número de ruas com nomes duplicados. As denominações mais comuns são as que utilizam números, sendo os números 2 e 3 os mais frequentes. Ruas marcadas com a letra “B” também são bastante predominantes. Números e letras são provisoriamente designados às ruas, especialmente em novos loteamentos. O crescimento urbano e populacional de Cuiabá pode explicar a elevada quantidade de ruas identificadas dessa maneira.
As vias que mais aparecem com nomes de pessoas no levantamento são as denominadas “Américo Salgados” e “Estevão de Mendonça”, cada uma com quatro registros no IPDU. Em seguida, estão as ruas “Ciríaco Candia”, “São Cristóvão”, “São Francisco de Assis”, “João Batista S. de Oliveira” e “Santa Maria”, que possuem três menções no cadastro da prefeitura. As avenidas com maior frequência de nomenclatura incluem “Miguel Sutil”, “Fernando Correia”, “Governador Dante Martins de Oliveira” e “Profa. Edna Maria de Albuquerque Affi”, sendo que “Miguel Sutil” a mais citada. Há também duas travessas chamadas São João, e não existem nomes repetidos para praças e parques.
A ocorrência de nomes idênticos para ruas pode ser decorrente de um equívoco por parte da instituição responsável ou de nomes atribuídos sem verificar o registro geral de logradouros, além de possíveis lacunas ou desatualizações nesse registro. O estudo revelou que a duplicação de ruas e avenidas com nomes masculinos ocorreu com maior frequência do que com nomes femininos.
Foi identificado um desequilíbrio entre os nomes masculinos e femininos em ruas, avenidas, travessas e praças, sendo os nomes masculinos foram predominantemente mais comuns. Essa desigualdade na nomenclatura foi observada em outras capitais brasileiras; em São Paulo, por exemplo, das 44.000 ruas, apenas 16% possuem nomes de mulheres. No Rio de Janeiro e em Salvador esse percentual não ultrapassa os 20%. De acordo com a pesquisa realizada, em Cuiabá, 78,8% das ruas têm nomes de homens, enquanto 21,2% são nomeadas em homenagem a mulheres. Embora Cuiabá apresente uma proporção maior em relação a São Paulo, ainda está aquém de uma distribuição equitativa entre os gêneros, semelhante ao que ocorre em outras capitais do país.
Entre as 49 vias que homenageiam mulheres, 36% são dedicadas a Santas (como Rua Santa Rita, Santa Filomena, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, Santa Bárbara, Rua Santa Cecília, entre outras), enquanto 26% possuem nomes de professoras. Apenas duas mulheres ocuparam cargos políticos (uma vereadora e uma deputada federal), além de três esposas de juízes e deputados. Para as outras, não foram localizadas informações biográficas durante a pesquisa.
As avenidas funcionam como as principais vias de circulação, caracterizando-se por sua largura, extensão e elevado fluxo de veículos, desempenhando um papel crucial na ligação de diversas áreas urbanas. Elas evocam a noção de mobilidade ágil, eficiência produtiva, lucro financeiro, avanço e emprego formal, aspectos que estão conectados à função social do homem. Na grande Cuiabá, apenas 14% das avenidas foram batizadas com nomes de mulheres — um indicativo de como a comunidade local percebia a presença da mulher na estrutura produtiva daquele período.
A maior concentração de vias e locais nomeados em homenagem a mulheres foi encontrada nas praças, que correspondem a 32,6% do total. Esses espaços são dedicados ao lazer e à prática de atividades físicas, servindo para o entretenimento, em vez de serem apenas áreas de passagem ou acesso ao trabalho. Historicamente, as mulheres foram encarregadas do papel de administrar o lar, ter filhos e viver sob uma rígida supervisão social. As tarefas atribuídas a elas limitavam-se às atividades domésticas, como cuidar da alimentação da família e do cônjuge, responsabilidades que muitos homens ainda exigem de suas parceiras. Assim, nomear praças em homenagem às mulheres parece ter sido uma escolha mais coerente, dada a sua posição em uma sociedade dominada pelo machismo.
Maria Taquara representou uma quebra significativa das normas sociais nas décadas de 40 e 50, enfrentando ofensas e misoginia ao exercer a profissão de lavadeira e ao se atrever a usar calças compridas; ela desafiou as normas vigentes. Entretanto, a sociedade de Cuiabá decidiu homenageá-la com o nome de uma praça, reinstaurando, de maneira sutil, a posição que sempre deveria ter ocupado, a de mulher, somente. Essa ação revela uma estratégia machista, sem desagradar aqueles que a admiravam.
Uma maneira diferente de diminuir a importância de um fato é deslocá-lo de seu contexto histórico. Mãe Bonifácia foi uma mulher africana, curandeira, mãe e negra que lutou contra a escravidão, protegia os negros da brutalidade dos senhorios, escondia doentes e feridos na floresta e os tratava. O Parque Mãe Bonifácia foi estabelecido como tributo a ela, pois foi naquela área verde, que hoje abriga o parque – de acordo com pesquisadores – onde ela abrigava os escravizados. É louvável que um espaço tão frequentado pelos cuiabanos sirva como homenagem a ela. Entretanto, se mantivermos a ideia de que a nomenclatura de parques é secundária em termos de significado, é possível que no futuro o nome Mãe Bonifácia venha a ser usado para batizar outro parque. Provavelmente, isso ocorreria mais pelo valor recreativo que o parque atual oferece à população do que pela história da mulher que emprestou seu nome ao local.
Existe uma travessa com o nome Mãe Bonifácia que possui 57 metros de comprimento e conecta uma rua importante (Rua Duque de Caxias) ao Parque Mãe Bonifácia, um tanto redundante.
Mãe Bonifácia e inúmeras outras mulheres que representaram a luta persistente descansam atualmente quietas nas bibliotecas, em volumes, recordações e canções que são pouco conhecidas pela juventude contemporânea. Revisitar o passado é semelhante a explorar um local arqueológico, onde se descobrem vestígios e indícios fossilizados que revelam como a sociedade se comportava e pensava. Entretanto, não existe uma separação radical entre o que foi e o que é, especialmente quando valores e crenças são transmitidos através da educação, da cultura, dos costumes, da arquitetura e do planejamento urbano.
As cidades brasileiras refletem, em diferentes intensidades, a difícil realidade social excludente, patriarcal e racista que se estabeleceu no Brasil desde a chegada dos primeiros colonizadores no século XVI. A nomenclatura de espaços públicos (como ruas, praças, avenidas, vielas, entre outros) é uma prática simbólica que não ocorre de maneira casual e passiva; existe por trás dela uma intenção! Devemos estar atentos a isso!
Alcione Lescano de Souza Junior é doutor em Fisiologia pela USP São Paulo e professor da UNEMAT.




























