ATELIÊ LIVRE

Gervane de Paula compartilha seus saberes e convida artistas a viver a arte como território, conflito e verdade

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As mãos de Gervane de Paula carregam mais de quatro décadas de insistência. Insistência em pintar, em denunciar, em criar a partir de Cuiabá, longe dos grandes centros que historicamente legitimam a arte brasileira, mas profundamente conectado ao mundo. É com essas mãos — calejadas pelo trabalho, pela tinta, pelo tempo e pela política — que o artista conduz o Ateliê Livre, vivência formativa que acontece no dia 14 de março, na Casa Vituká, em Cuiabá.

O encontro propõe uma imersão no pensamento e no fazer artístico de um dos nomes mais emblemáticos das artes visuais em Mato Grosso. A atividade marca o início do 1º ciclo de formação do Projeto Plataforma Vituká e é viabilizada pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2025.

No espaço do ateliê — cheio de telas, objetos, materiais cotidianos, imagens e vestígios do mundo — Gervane não oferece respostas prontas. Oferece processo. “O ateliê é um lugar para que as pessoas possam receber orientação de pintura e técnica, como acontecia antigamente. É um passo importante para estarmos sempre renovando a arte mato-grossense”, afirma.

Arte que nasce do bairro e alcança o mundo

Nascido em Cuiabá, em 1961, Gervane começou a pintar em 1976, quando frequentou o Ateliê Livre da UFMT. Para ele, aquele espaço foi decisivo não apenas na sua formação, mas na história da arte local. “O ateliê foi um espaço de transição da arte mato-grossense. Até então, os artistas pertenciam a outro nível da sociedade. Ele abriu portas para jovens de origem popular, afrodescendentes, indígenas. Foi uma pré-decolonização da arte no estado”, relembra.

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A relação com o território nunca foi decorativa. Em sua obra, o ponto de partida é sempre o entorno imediato. “Primeiro o bairro, a cidade, o estado, o país e atingir o mundo”, resume. Suas pinturas, desenhos, objetos e instalações transitam entre o cotidiano e a denúncia, entre o simbólico e o brutal, abordando violência urbana, crimes ambientais, autoritarismo, racismo e conflitos sociais.

Criar, para Gervane, é um ato político — mesmo quando não se admite. “Toda vez que começo uma obra sou movido por uma vontade incontrolável de perturbar e irritar o espectador”, diz, citando o escritor austríaco Thomas Bernhard. Não por acaso, armas, rios de sangue, artistas mortos e textos incisivos atravessam sua produção, retirando o público de uma posição confortável. “Quero tirar o olhar passivo do espectador e fazê-lo cúmplice da obra.”

Ao longo da carreira, Gervane enfrentou censura, obras rasgadas, trabalhos retirados de exposições e o isolamento de quem escolheu permanecer produzindo fora do eixo Rio–São Paulo. Ainda assim, nunca se diz consagrado. “Por enquanto sou apenas um artista que levo bastante a sério a profissão que exerço”, afirma.

A permanência vem do trabalho. “Não faço arte somente para vender. A venda é o último pensamento antes de começar qualquer obra”, explica. A técnica, segundo ele, nunca foi o maior desafio. “O problema não é a técnica, são as ideias.”

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Formação como troca, não como fórmula

O Ateliê Livre oferecerá vagas para artistas em qualquer etapa da carreira. A proposta é compartilhar o cotidiano, as inquietações e a lógica de criação de Gervane. “Podem aprender que é possível fazer arte com materiais simples, que estão ao alcance de nossas mãos. Essa ilusão de que só com tinta importada se faz boa arte precisa ser quebrada”, afirma.

A formação, como ele define, é humana. Autodidata. Viva. “Compartilhar o processo criativo é compartilhar um pouco do meu dia a dia”, resume.

Em um estado onde o mercado de arte ainda é frágil e a produção local carece de registros escritos, Gervane vê iniciativas como essa como forma de romper o isolamento. “Precisamos nos reunir e escrever mais. Escreveu-se muito pouco sobre a arte de Mato Grosso. Nossa intenção é refletir e produzir.”

Serviço

O Ateliê Livre com Gervane de Paula acontece no dia 14 de março, na Casa Vituká (Rua T-5, nº 15, Parque Cuiabá), com atividades no período matutino (9h30 às 12h) e vespertino (14h às 17h).

As inscrições estarão abertas de 16 de fevereiro a 4 de março, por meio de formulário online.

Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected] ou pelo WhatsApp (65) 98144-2519.

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