Gisela Simona

‘Onde o direito foi ameaçado, eu estive’

Vivemos tempo em que defesa da dignidade humana exige mais do que discursos

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Vivemos um tempo em que a defesa da dignidade humana exige mais do que discursos: exige ação, coragem e compromisso permanente. Ao longo da minha trajetória como mulher, deputada federal, líder da bancada feminina do União Brasil e, agora, vice-líder do maior bloco parlamentar da Câmara dos Deputados, atuei em 2025 de forma intensa e aguerrida em algumas frentes centrais do meu mandato. Frentes que não se organizam por conveniência política, mas por convicção: a defesa das mulheres, a reparação histórica à população negra e a proteção intransigente do consumidor brasileiro.

A luta pelos direitos das mulheres, longe de ser uma pauta identitária, é uma agenda estruturante da democracia. Seguimos enfrentando barreiras invisíveis — e muitas vezes naturalizadas — que limitam o pleno exercício de direitos básicos. Por isso, ao longo deste ano, coordenei em Cuiabá iniciativas como o Defesa Lilás, em maio, e o Agosto Lilás, além de participar ativamente de encontros, palestras e ações em diversas regiões do estado durante os 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres e meninas, entre novembro e dezembro.

Esses espaços foram, sobretudo, territórios de escuta, denúncia e resistência. Em rodas de conversa e depoimentos públicos, mulheres de diferentes realidades sociais deram rosto às estatísticas que ainda envergonham o país e que colocam Mato Grosso, pelo segundo ano consecutivo, no topo do ranking nacional de feminicídios. Sempre faço questão de afirmar, no plenário da Câmara ou em alguns diálogos com a imprensa, que  o debate público sobre a violência de gênero é importante, contudo, não podemos enfrentá-la só com campanhas pontuais, mas com políticas públicas permanentes, legislação eficaz e a presença concreta do Estado onde as mulheres mais precisam.

Nesse mesmo horizonte de justiça, 2025 também foi marcado por um avanço histórico: como relatora da Proposta de Emenda à Constituição nº 27/2024 — a PEC da Reparação — e como mulher negra integrante desta bancada na Câmara desde sua criação, em 2023, celebrei a aprovação de sua admissibilidade na Comissão de Constituição e Justiça, em setembro, e o avanço do relatório na Comissão Especial, em dezembro. A proposta institui o Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial, reconhecendo o papel decisivo da população negra na construção do Brasil e, ao mesmo tempo, as privações históricas que lhe foram impostas. Trata-se de um passo concreto na correção de desigualdades estruturais que ainda moldam oportunidades e destinos.

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Outra frente prioritária do meu mandato em 2025 foi a defesa do consumidor — uma atuação que dialoga diretamente com minha trajetória à frente do Procon e com a responsabilidade de quem entende que cidadania também se exerce nas relações de consumo. Duas agendas distintas, mas profundamente conectadas, ganharam repercussão nacional: o enfrentamento aos abusos praticados por companhias aéreas e as práticas recorrentes dos planos de saúde.

No setor aéreo, reagi com firmeza às tentativas das companhias Latam e Gol de restringir peso e dimensões da bagagem de mão e de impor cobranças por itens historicamente gratuitos. Medidas anunciadas sem debate público, sem estudos de impacto regulatório e sem diálogo com órgãos de defesa do consumidor, que evidenciaram a prática recorrente de transferir custos ao passageiro sob o discurso da eficiência operacional. A mobilização resultou na aprovação do Projeto de Lei nº 120/2024, que proíbe a cobrança pelo transporte de bagagem de mão de até 10 kg em voos nacionais e internacionais — uma vitória concreta para o consumidor brasileiro.

Na mesma linha, me posicionei publicamente contra a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu em todo o país ações judiciais sobre a responsabilidade das companhias aéreas por atrasos, cancelamentos e alterações de voos. Essa medida fragiliza o passageiro ao interromper a possibilidade de reparação judicial em casos já consolidados pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, como overbooking, extravio de bagagem e falhas operacionais. Diante disso, protocolei requerimentos junto ao Conselho Nacional de Justiça e à Presidência da Câmara, defendendo a emissão de nota técnica que diferencie fortuito interno e externo, evitando interpretações genéricas que prejudiquem milhões de consumidores.

No campo da saúde suplementar, ampliei o debate sobre práticas abusivas que atingem mais de 50 milhões de brasileiros. Em audiência pública realizada na Câmara, com a presença de representantes do Idec, Procons, entidades médicas e do Conselho Federal de Medicina, emergiu um cenário alarmante: negativas sistemáticas de exames e procedimentos, descredenciamento de profissionais, interferências na autonomia médica e uma escalada de reclamações que cresceu mais de 300% nos últimos anos. Denúncias frequentemente minimizadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar como ‘falhas de comunicação’, mas que revelam um sistema em desequilíbrio profundo.

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Por fim, diante da indignação nacional provocada pelas fraudes bilionárias envolvendo o INSS — que resultaram na instalação de uma CPMI no Congresso —, apresentei um conjunto de três projetos de lei voltados à proteção de aposentados e pensionistas, vítimas de contratos obscuros, descontos indevidos e práticas abusivas que corroeram benefícios previdenciários em silêncio.

O primeiro PL –  nº 2.239/2025 – estabelece a restituição em dobro dos valores descontados indevidamente, cria regras mais rígidas para consignações e empréstimos e reforça a exigência de consentimento livre, informado e rastreável, em consonância com os princípios do Código de Defesa do Consumidor. Já a minha outra proposta – PL nº 4.966/2025 – mirou o uso indevido de CPFs de crianças e adolescentes em operações de crédito consignado, vedando a concessão de crédito a menores de 18 anos sem autorização judicial e prevendo nulidade contratual e sanções severas. O último, o PL nº 4.698/2025 propõe a extinção do cartão de crédito consignado, modalidade que tem levado milhares de brasileiros ao endividamento predatório, ao adoecimento psicológico e, em casos extremos, à perda da própria vida.

Assim, seja no enfrentamento à violência contra a mulher, na busca por reparação histórica à população negra, na defesa do consumidor frente a grandes corporações ou na proteção de aposentados e pensionistas, reafirmo meu compromisso com um mandato atento, combativo e profundamente conectado às dores reais da população. Um mandato construído a partir da escuta, do estudo e da ação, porque sigo convicta de que a política só faz sentido quando transforma a vida das pessoas.

Gisela Simona é advogada, servidora pública e deputada federal

Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião Cuiabá Notícias

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