Com mais de 20 anos de vida pública, o ex-vice prefeito de Cuiabá e ex-deputado estadual, Carlos Roberto Santana, traçou um panorama crítico sobre a política mato-grossense durante entrevista ao Cuiabá Notícias. O político, que também já foi vereador, destacou a perda do idealismo na política atual, o excesso de mudanças nas regras eleitorais e a falta de consistência programática como alguns dos principais entraves para o fortalecimento da democracia.
“Eu fui candidato a deputado federal, deputado estadual, senador da República. E a cada ano era uma regra diferente, uma legislação diferente, o candidato fica sem saber como vai trabalhar”, lembra
“A política é a mesma. O que mudou é o meio de fazer política. Cada eleição tem uma regra diferente, isso não melhora nada. Melhor seria ter uma regra clara que não mudasse, uma questão definida, vai ser assim, uma regra ‘X’, isso sim é melhor. Não é essa mudança de regra eleitoral. Você sabe o que pode fazer, o que não pode fazer, porque você está dentro da regra”, explica.
Ao falar sobre o perfil dos novos políticos, o ex-deputado lamentou a perda de vocação pública e o avanço de interesses pessoais nos projetos eleitorais.
“Eu entrei na política por ideal. Hoje, muitos entram por projeto pessoal. Não têm grupo, não têm ideologia, não têm compromisso partidário. Eu mudei de partido, mas levei comigo um grupo com pensamento comum”, conta.
Carlos Roberto foi vice-prefeito de Cuiabá, questionado sobre a Cuiabá de hoje, ele enaltece a transformação, mas lamenta a perda do título de cidade verde, apelido que a Capital tinha na década por ser arborizada, mas acabou perdendo grande parte dessa vegetação para ruas, calçadas e construções.
O político relembrou que a cidade de décadas atrás era marcada por suas mangueiras, casas térreas com telhados coloniais e ruas arborizadas.
“Cuiabá era conhecida como cidade verde. Tinha árvore em toda rua. Hoje é uma metrópole, cheia de prédios, asfalto por todo lado, e o verde desapareceu.”
Ele lamentou a destruição do patrimônio histórico e cultural e criticou a falta de planejamento urbano.
“Demoliram casarões lindos. A livraria FIP, por exemplo, era um casarão maravilhoso, todo trabalhado à mão. Hoje está caindo aos pedaços. Tudo virou concreto e calor. Quando eu era vereador, tentei aprovar uma lei para dar desconto no IPTU a quem preservasse vegetação nos terrenos. Chamava-se projeto Viva Verde. Mas não passou, e hoje perdemos o título de “cidade verde”.
Relembrando embates e histórias políticas
Ao longo da entrevista, Carlos Roberto também fez questão de contar histórias curiosas e embates políticos do passado, como sua relação conflituosa com o ex-prefeito Frederico Campos, chefe do Executivo na época.
“Eu fazia oposição com cartaz, cartolina e fogo. Fazia maior confusão na frente do Alencastro. Era minha forma de mostrar resistência. Frederico ficava furioso”
Ele também revelou a ligação política com José Medeiros (PL) e comentou a influência do ex-presidente da República Jair Bolsonaro sobre o senador.
“O Medeiros era meu fã. É um cara de coração bom, mas hoje está muito ligado ao bolsonarismo. Tem que ver como o povo vai reagir a isso.”
Crescimento econômico de MT
O ex-deputado analisou o crescimento econômico de Mato Grosso e a transformação do Estado a partir das gestões de Dante de Oliveira e outros nomes com forte bagagem técnica.
“O Estado começou a melhorar mesmo com Dante, que teve apoio de grandes economistas. Antes, nem conseguíamos pagar a folha. Foi no segundo mandato que ele conseguiu organizar as finanças.”
Ele também destacou a importância da parceria com nomes como Edson Garcia e técnicos vindos do governo federal.
“Foram eles que ajudaram a arrecadar sem aumentar imposto. Hoje o Estado tem uma arrecadação brilhante. O segredo não é ter mais dinheiro, é saber como arrecadar com inteligência.”
Gestão de Mauro Mendes
Ao avaliar o desempenho do atual governador, Mauro Mendes (União Brasil), o ex-deputado reconheceu avanços, embora ressalte que hoje o Estado caminha com autonomia própria.
“O Mauro não foi ruim, avançou bastante, tem obras para todos os lados, asfalto, pontes, mas hoje o Estado anda sozinho. Se tiver um bom gestor, melhora, mas se não tiver, o sistema estará seguro. Mato Grosso tem vida própria.”
Alinhado ao desenvolvimento do Estado ele também citou o papel das instituições de controle na governança.
“Hoje tem muito balizamento. O Tribunal de Contas Estado (TCE), criou indicadores, o Ministério Público atua fortemente. Isso ajuda o governador a não errar. É igual estacionamento: se tiver alguém te orientando, você encaixa o carro certinho.”
Eleições 2026
Questionado sobre o cenário que antecede as eleições de 2026, o político aponta que as discussões começaram cedo demais, e que até o fechamento das janelas partidária muitas coisas podem mudar.
Quando citado o nome do vice-governador Otaviano Pivetta para a sucessão de Mauro Mendes, ele avaliou que Pivetta pode enfrentar dificuldades.
“Não conheço bem o Pivetta, só de nome e da cooperativa da região dele. Não tenho relação política com ele. Mas ouço dizer que foi um bom gestor em Lucas do Rio Verde. Porém, tem boatos pesados contra ele, especialmente envolvendo mulheres. Isso pega muito mal, politicamente falando.”
Em relação à deputada estadual Janaína Riva (MDB), o ex-deputado demonstrou respeito pela trajetória da parlamentar e pela forma como ela superou o passado turbulento de sua família.
“Ela conseguiu dissociar sua imagem da história do pai. Tem crescido muito pela forma como trata as coisas. Política precisa de gente completa.”






























