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Com trajetória marcante na política mato-grossense desde o período de redemocratização, Osvaldo Sobrinho (PTB) relembrou, em entrevista exclusiva ao Cuiabá Notícias, os principais momentos de sua carreira pública e fez uma avaliação crítica do cenário político atual de Mato Grosso. Ex-governador, ex-senador, ex-deputado estadual e federal, ex-secretário estadual de Educação, Sobrinho teve papel de destaque na construção institucional do Estado ao longo das últimas décadas.
Formado em Economia e Direito, com mestrado e doutorado, ele ocupou cargos nas esferas estadual e federal, com destaque para sua atuação nas áreas de educação, infraestrutura e desenvolvimento regional. Sobrinho relembra um dos marcos de sua carreira como a criação da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), considerada por ele “um divisor de águas” para o desenvolvimento do interior do estado.
“Criamos a Unemat sediada em Cáceres (a 220 km de Cuiabá), que em seu primeiro ano teve 3.500 alunos, para formar professores e atender a demanda naquela época. Hoje ela tem mais de 30 mil estudantes e está presente em dezenas de municípios. Foi um marco para a educação e para a descentralização do ensino superior em Mato Grosso”, lembra.
A proposta de criar uma universidade estadual surgiu a partir da constatação do alto custo e dificuldade enfrentados pelos professores do interior para obter formação superior.
“Eles saíam de madrugada para estudar em cidades de São Paulo e voltavam à noite. Era desumano. Vimos que era necessário criar uma instituição próxima, acessível e voltada à realidade local”, lembrou.
Osvaldo relembra com entusiasmo o momento em que o norte de Mato Grosso começava a ser colonizado, com a chegada de famílias do Sul do país.
“Eu era delegado regional de educação e acompanhei a abertura de estradas, a criação de escolas, o surgimento de distritos e municípios. Era tudo novo, tudo começando do zero”, contou.
Ele afirma ter se sentido “no lugar certo, na hora certa”, ao assumir posições de liderança em um período de efervescência social e política.
“Fui o deputado estadual mais votado da história de Mato Grosso por dois mandatos consecutivos, e depois eleito deputado federal constituinte. Era um tempo de esperança, em que o Estado se transformava diante dos nossos olhos”, comentou.
Já como secretário de Estado de Educação, o ex-senador também liderou experiências pioneiras em educação a distância no estado, em parceria com a Unemat e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
“Iniciamos um projeto-piloto com 336 alunos em polos espalhados pelo estado. Hoje a educação a distância está em todos os níveis e formatos, mas naquela época era novidade”, afirmou.
Segundo ele, o projeto serviu de base para modelos replicados em todo o país. “Tivemos apoio do Conselho Estadual de Educação, dos professores e de todos os envolvidos. Foi um esforço coletivo com foco no futuro.”
Apesar do otimismo com o passado, o ex-senador se mostra crítico ao atual modelo educacional, que segundo ele privilegia formações acadêmicas pouco conectadas à realidade do mercado. Ele defende um novo olhar para a formação profissional, com foco em cursos técnicos e especializações.
“Estamos cheios de bacharéis e vazios de profissionais técnicos. Falta eletricista, encanador, vaqueiro, capataz. A base da nossa economia está sem trabalhadores qualificados”, alertou.
“Temos que parar de pensar só em curso superior. Precisamos de escolas técnicas, formação profissional de segundo grau, gente pronta para o trabalho. Isso é o que move a economia”, declarou.
Segundo ele, a ausência de trabalhadores qualificados também é agravada por problemas de políticas sociais.
“Muita gente não quer trabalhar com carteira assinada porque não quer perder o benefício do Bolsa Família. Isso cria uma distorção grave no mercado de trabalho”, afirmou.
Indústria e desenvolvimento: oportunidades perdidas
Sobre o potencial econômico de Mato Grosso, o ex-senador vê o estado como um “gigante ainda mal aproveitado”. Segundo ele, a produção primária é relevante, mas falta estrutura para industrializar e agregar valor aos produtos.
“Exportamos soja, milho, carne in natura. Estamos alimentando o mundo, mas gerando emprego lá fora. Precisamos de uma política de incentivo à industrialização, com financiamento, atração de empresas e formação de mão de obra. Se fizermos isso, ninguém segura Mato Grosso”, pontuou.
Hoje fora da política partidária e dedicado à carreira acadêmica, o ex-senador vê com serenidade o legado que deixou. Lecionou por quase uma década em cursos de Direito e concluiu mestrado e doutorado.
“Participei da transformação de Mato Grosso com ações concretas, principalmente na educação. Tenho orgulho disso”, disse.
Ele finalizou com uma frase que sintetiza seu pensamento sobre a trajetória pública: “Estar no lugar certo, na hora certa e com preparo é sorte. Mas transformar essa sorte em ação é responsabilidade.”
Visão sobre a política atual
Para o ex-senador, a nova geração de políticos peca pela superficialidade e pela falta de preparo técnico e vocação pública.
“Hoje é muito poder pelo poder. Tem muita gente querendo cargo, mas poucos pensando em gestão. A política virou um fim em si mesma”, criticou.
Ele também avalia que há um “vácuo de representatividade” entre o eleitor e os parlamentares. “É preciso resgatar o conceito de representação popular. Um político não é só um operador de emendas, mas alguém que pensa o estado, que ouve, propõe, constrói caminhos”, argumentou.
Sobre o aumento do número de parlamentares em discussão no Congresso, ele foi enfático.
“Mais deputados não resolve nada se continuarmos com os mesmos vícios. O que resolve é qualidade, consciência e responsabilidade.”























